Às vezes não dá pra viajar.

Volta e meia a vida dá uns sacodes na gente, que acabam servindo de lembrete pra valorizar o que realmente importa.

Pode ser a doença de alguém que você ama, pra você perceber que o que mais importa é o amor. Pode ser a morte desse alguém, que te faz perceber que demonstrar esse amor em vida, e sem postergar, é importante. Pode ser uma doença sua, que te faz perceber como saúde é uma benção.

O ideal, claro, era que a gente não precisasse receber socos da vida, pra se dar conta do que realmente importa nela. Mas o ser humano não é nada ideal, ele é um grande trouxa mesmo.

Até porque, se já tivéssemos passado por algum processo evolutivo muito grande que nos fizesse aprender definitivamente a sermos gratos, felizes e a demonstrar amor sem travas e sem nos ater tanto a mesquinharias da vida, acho que teríamos nascido cachorros, porque acabei de descrever um.

cachorros são realmente maravilhosos.jpg
cena mais doce captada da Mel  “velando” meu sono

Somos todos tão bocós, aliás, que mesmo vivendo todos aqueles baques do segundo parágrafo, depois de algum tempo já esquecemos do que importa, e voltamos àquele estado de ingratidão com tudo de bom que temos, de descuido com a saúde, de insinceridade com aquela pessoa que a gente ama, de falta de tempo pra algumas das coisas mais importantes da vida, de muita dedicação de tempo às coisas mesquinhas, de muito estresse por pouca m*rda, de rivalidades infundadas, de preocupações imaginárias que projetamos pra 2023 enquanto não olhamos pra algo maravilhoso que temos pra esse mesmo fim de semana.

Não à toa, aquele chavão de que “pessoas só dão valor quando perdem” se repete tanto. Eu gostaria que não fosse real – e principalmente, gostaria de não corroborar com as estatísticas. Mas parece que, uma vez que nascemos humanos e não cachorros, todos os dias das nossas vidas exigem um exercício de lembrar do que importa, senão a gente se perde por tudo que não tem a menor importância.

Alguns desses mil “gurus da felicidade” dão até a ideia de anotar num caderninho, sempre que acordar, tudo pelo qual você poderia agradecer. E parando pra pensar, só o fato de ter acordado mais um dia e poder escrever nesse caderninho, já seria um motivo pra agradecer.

E o que raios tudo isso tem a ver com viagem?

Esse desabafo todo surgiu basicamente porque nesse feriado eu tinha passagens compradas e hostel reservado pra ir pra um evento, que ia (vai) ser bem bacana, eu tava ansiosa e tudo. Mas não deu pra ir, por problemas que envolvem pessoas que eu amo. Eu fiquei mal, e depois me caiu a ficha que: c*ralho, que bom que as pessoas que eu amo estão vivas. Eu tinha é que estar dando graças a Deus. Ao invés disso provavelmente tava sendo ingrata me perguntando mentalmente “oh céus, por que tanta titica acontecendo ao mesmo tempo? Por que justo agora? Por que (insira outros questionamentos mimizentos eternos)”.

E refletindo sobre essas “coisas que importam na vida”, em algum ponto desses “sacodes” que levamos, dá pra perceber fácil que viajar não é a coisa mais importante da vida. Acho que não é nem a 7ª. Algumas pessoas se sentem mais “vivas” ou mais estimuladas viajando (eu fico feliz pra caramba viajando). Mas daí à viagens se tornarem necessárias ou sua principal motivação pra viver, é um baita salto (e um salto não muito recomendável).

Existe uma frase mais batida do que clara em neve que diz “colecione momentos, não coisas”. Eu concordo com isso (eu, toda a torcida do Flamengo, toda a torcida do Corinthians e conheço uma parte da torcida do Palmeiras, do Grêmio e do Cruzeiro que fatalmente também concordaria – e eu sou botafoguense).

Mas eu também acho que, se eu considerasse “ver a Cordilheira dos Andes” ou “botar o pé na água do Caribe” minha principal motivação da vida, ao invés de, por exemplo,”passar o aniversário da minha mãe com ela” ou “fazer companhia pra alguém que eu gosto em um momento difícil” – daí eu viajo no dia do aniversário da minha mãe, ou vou passar férias no Caribe quando alguém importante pra mim tá no hospital – já parou pra pensar que eu estaria valorizando mais as montanhas rochosas e a água do caribe do que alguém que eu amo?

Daí temos uma plot twist aqui: mesmo viajando, eu estaria valorizando mais as coisas.

Embora preguem que viagens sejam sempre transformadoras, enriquecedoras, blabladoras, nem sempre isso é verdade. Contemplar o Lago Baikal não implica necessariamente em uma experiência tão profunda quanto o próprio Lago, ver os leões na Savana africana não te torna imediatamente um novo ser humano, e nada disso envolve necessariamente amor, trocas, pessoas que nos importam ou grandes epifanias transformadoras de vida.

Às vezes viajar é só viajar mesmo, algo bem gostoso que a gente faz pra passar uns dias agradáveis, porque somos seres humanos que tem nos fins de semana e nas férias o principal combustível pra lembrar que viver é realmente bom. Como já disse lá em cima, não somos cachorros, senão lembraríamos sempre disso – eles estão sempre felizes por viver, mesmo sem saber o conceito de férias e fim de semana.

Então claro que viajar deixa a gente alegre, mas isso não significa necessariamente que não viajar tem que deixar a gente infeliz.

Falei mais sobre isso também em: Como o vício em viajar pode te fazer mal (e ferir pessoas ao seu redor).

E o que concluímos desse lero lero todo?

Não concluímos nada, porque isso é só um desabafo. Sei lá se desabafos concluem alguma coisa.

Mas se você tá triste por estar valorizando demais aquela viagem que não deu pra fazer no feriado, ou se você tá genuinamente mal porque perdeu uma passagem promocional pra Bora Bora, esse texto serve de lembrete que a frase “viajar é viver” não é tão verdadeira.  Tudo é viver. Viver que é uma p*ta viagem.

Embora pareça uma missão hercúlea às vezes, a gente é capaz de valorizar hoje tudo que há de bom ao nosso redor (e dentro da gente), ao invés de valorizar só as paisagens distantes que pretendemos ver em dezembro do ano que vem.

E escrevi esse texto pra que eu mesma possa ler em momentos de ingratidão (já que não sou um cachorro, então ainda devo ter muitos desses) e em momentos que esqueço do que importa, pra sempre me lembrar.

às vezes não dá pra viajar.jpg
espero um dia ser um cachorro (nessa foto aparentemente estávamos tentando fazer uma fusão)
Não esquece disso você também. Amanhã você anota no “caderninho da gratidão”, pra tentar não brigar com seu pai, não gritar com sua filha ou não se desentender com o namorado por pouca m*rda.

Se você gosta de textos sem conclusão nenhuma, o 1 viagem, 2 visões agora tem toda uma categoria só de “desabafos” onde basicamente escrevo um monte de groselha. E até o próximo post!

5 comentários sobre “Às vezes não dá pra viajar.

  1. Perfeito! Várias vezes me vi chateada de não ter viagem marcada nesses dois feriadinhos de novembro, mas ando com mó saudade de ficar em casa, aproveitando meus cusquinhos. Realmente é muito importante ter esse olhar da gratidão, seja no sofá ou Londres. :*

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  2. Isso ai! A vida (e as viagens) é feita de escolhas. Encontrar o equilíbrio entre o emocional e o racional não é fácil. Razão e emoção são mais polarizados que nossa política de hoje. A escolha certa é aquela que vale para você! O resto é resto.
    Em 2015 estava em viagem quanto minha sogra foi internada. Minha cunhada me ligou quando estava almoçando em Veneza. Minha decisão: voltar para o Brasil. Em menos de 24 horas já estava no Rio. Deu tempo de me despedir… Dois dias depois ela faleceu. Fiz a escolha certa!
    Há dois meses meu melhor amigo faleceu. Ele amava viajar! A filha dele estava passeando na Dinamarca. Resumindo, lá estava e lá ficou e não veio ao Rio para o velório do pai. Fez a escolha certa!
    São situações quase iguais, com decisões díspares! A escolha certa é aquela que acalma e atende ao seu coração. Mesmo que os outros não te entendam!
    Parabéns por suas escolhas! 😉

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