Como o Japão deixou de ser um país isolado? (bônus: filmes, animes e livros MANEIRÍSSIMOS sobre a Restauração Meiji e o Xogunato Tokugawa)

O Japão desperta fascínio e curiosidade em muita gente (eu incluída), em grande parte por sua cultura e história tão diferente da ocidental, que nos passa a impressão que temos todo um universo paralelo pra desvendar por lá (e eles devem pensar exatamente a mesma coisa daqui).

Cenas registradas do Brasil e Japão se apontando e dizendo “nossa, você é tão diferente, que interessante”

E essa sensação de “universo paralelo misterioso a ser desvendado” faz sentido, uma vez que o Japão que a gente conhece (ou sonha em conhecer) era um país completamente isolado e fechado aos olhos do resto do mundo até bem tarde se comparado com outros países. O Brasil mesmo, por exemplo, só começou a ter qualquer espécie de relação ou troca com o Japão em 1895.

O “Tratado de Amizade, Comércio e Navegação” foi firmado em 1895 entre o Brasil e Japão, em boa parte movido pelo interesse brasileiro em mão de obra destinada às lavouras de café. Os primeiros imigrantes japoneses chegariam no Brasil em 1908

Mas antes de falarmos do Japão aberto ao mundo, vamos lembrar do Japão isolado, pra entender melhor o que aconteceu.

O Japão isolado:

Desde 1603 o Japão estava sob o Xogunato Tokugawa – que, pra facilitar a nossa compreensão, poderia ser definido como uma ditadura militar em termos japoneses.

“Xogum” significa algo como “grande general” (mais especificamente, é a “abreviação de Seii Taishōgun”, 征夷大将軍”, que obviamente copiei e colei da wikipédia, e de acordo com ela significa “Grande General Apaziguador dos Bárbaros”).

Eram esses “grandes generais apaziguadores dos bárbaros” (mais fácil chamar de xogum mesmo) que mandavam na p*rra toda – até nos Imperadores – e durante esse Xogunato Tokugawa, o xogum decidiu fechar o país ao resto do mundo por mais de 200 anos.

E por que o Xogunato Tokugawa quis isolar o Japão?

Em parte como uma forma de proteção (porque o Japão via o que tinha acontecido, por exemplo, com a China, o Imperialismo europeu, a guerra do Ópio) e também como forma de banir o Cristianismo. Durante o Xogunato Tokugawa, cristãos foram perseguidos, torturados de formas bizarras (como serem pendurados de cabeça pra baixo numa cova com excrementos), obrigados a negar sua crença e pisar na imagem de Jesus, crucificados, queimados e executados no Japão.

perseguição ao cristãos durante xogunato tokugawa
cristãos pendurados nas covas com excrementos  (imagem: Getty Images)

Se bater curiosidade sobre o tema, o livro “Silêncio”, que é um baita clássico de Shusaku Endo, é fortemente recomendado. Esse aqui.

E por que raios faziam isso com cristãos no Japão?

Muitos japoneses que se convertiam ao Cristianismo deixavam de enxergar o imperador e o xogum como “divindades”. Dessa forma, o Cristianismo podia ser enxergado como “ameaça” pelo xogunato.

No início o xogum mandava matar, crucificar e queimar cristãos em público, adultos e crianças, mas isso não funcionou pra fazer pessoas deixarem de ser cristãs, então começaram a torturar de forma cada vez pior até que pessoas renunciassem às suas crenças (o livro trata sobre esse período) – o que também não funcionava, e as torturas iam atingindo níveis cada vez mais inacreditáveis.

Foi então que,  justamente depois da “Rebelião de Shimabara” (iniciada por camponeses cristãos), o isolamento do Japão se intensificou.

Em síntese, o país se tornou tão fechado que até um japonês que fosse pra fora dele já não podia voltar mais. 

Até um dia em que navios americanos chegaram no Japão e isso começou a mudar. Mas vamos com calma, pra entender melhor.

Como o Xogunato acabou – indo com calma pra entender melhor

Imagine que um dia, tá você sendo japonês de boa no Japão olhando pro seu horizonte japonês na baía japonesa, e vê quatro navios – não japoneses – chegando.

Você nem sabe ainda de onde são, talvez porque é míope, tá vendo de longe, e não sei como era a facilidade de ter óculos naquela época. Pra piorar, os navios são tão diferentes dos que você tá acostumado (a marinha americana era incomparavelmente mais avançada que a japonesa), que a cena se torna tão assustadora quanto alienígenas apontando mísseis verde neon pra nossa cara.

Vão chegando mais perto. Vão chegando. Chegaram. Sai um cara chamado Matthew Calbraith Perry e diz, basicamente:

como o Japão deixou de ser um país isolado restauração meiji e fim do xogunato tokugawa

E agora você sabe.

“Quem sou eu pra dizer não, né?”

Foi o que o xogum pensou, ao ver um documento assinado pelo presidente dos Estados Unidos – que na época pregava a doutrina do “Destino Manifesto” – demandando a abertura dos portos japoneses aos EUA e o início de trocas comerciais entre ambos.

No caso, o Japão pensou isso após ver canhões apontados pra ele e receber ameaças militares sem a menor possibilidade de se defender em condições de igualdade, claro. E a isso, inclusive, se dá o nome de “diplomacia das canhoneiras”. Algo como “você até pode negar meus pedidos… mas já viu meus canhões logo ali, que bonitos?”.

O xogum não vislumbrou opção a não ser submeter-se às “negociações sugeridas” pelos EUA (SAP: tratados desiguais impostos de forma ameaçadora).

A partir daí, o Japão firmou diversos acordos e negócios com os EUA – todos muito mais favoráveis aos Estados Unidos, claro. E nem foi só com os Estados Unidos: Rússia, França, Holanda e Reino Unido também aproveitaram e firmaram tratados desvantajosos com o Japão, a partir do momento em que ele abriu seus portos.

E ficou assim até quando?

A população japonesa, especialmente a que detinha mais poder econômico, ficou danada da vida/indignada/virada no Jiraya com esses tratados desiguais e o fato de que o xogum estava submetendo o Japão às vontades de outros países.

Na imagem podemos observar Pikachu gritando: “TIRA ESSES ESTRANGEIRO DAQUIIII”

Vale lembrar que essa mesma população já era incentivada de certa forma a uma postura xenófoba, ao longo de séculos de isolamento imposto pelo xogunato, e de repente chegaram outros países impondo suas condições e tratados não muito benéficos ao Japão, o que só piora.

E foi aí que cobraram que o Japão se isolasse de novo. E começaram a clamar pela restauração daqueles “bons tempos” de um Japão fechado. E por isso a gente ouve falar em “Restauração Meiji” – o “restauração” a gente já entendeu, o Meiji a gente vai falar sobre agora.

Na visão dos japoneses, “o xogum vacilou” (não que ele tivesse opção, convenhamos), então “o xogum tem que vazar”. Agora queriam que o Imperador que governasse – aquele imperador que a gente viu lá em cima que até então funcionava só como objeto decorativo durante o xogunato, lembra?

Samurais também não estavam muito satisfeitos com toda a situação.

E é aí que entra a Guerra de Boshin (e o filme “O último Samurai”, que eu fui assistir antes de terminar esse post porque não tinha assistido até hoje, uma pouca vergonha de minha parte).

E foi nessa guerra em que o Tom Cruise se meteu (acabei de assistir), que derrotaram o Xogunato Tokugawa. E chegou a hora. É agora, hein. É agora.

Acabou o xogunato. Tom Cruise se curva ao Imperador

Agora sim: a revolução Meiji

Finda a guerra que derrubou o xogunato, agora é hora do Imperador governar o Japão, e não mais o xogum. E aqui cabe comentar que o Imperador de antes tinha acabado de morrer e o herdeiro do trono era um garotinho de 14 anos.

“Vai o garotinho mesmo”. E  lá foi o jovem Imperador Mutsuhito, com 14 anos, governar o Japão.

como o Japão deixou de ser um país isolado - restauração meiji e fim do xogunato tokugawa
Imagem: The Meiji emperor moving from Kyoto to Tokyo.
“Le Monde Illustre”, February 20, 1869.

Bem “D. Pedro II feelings” (aliás, tem umas curiosidades sobre D. Pedro II – e sobre Florianópolis – nesse post aqui, se você ainda não leu: Uma história bizarra por trás do nome de uma cidade linda: Florianópolis).

E sim, Tom Cruise se curvou a um garotinho.

Mas se o nome do Imperador é Mutsuhito, por que que a Era chama “Meiji” e não “Era Mutsuhito”, minha filha?

Eu não escrevi errado – ou talvez sim, porque sou completamente inepta em japonês e posso ter cometido erros de grafia acima, fica à vontade pra avisar nos comentários se notou – o nome do Imperador era realmente esse. E a Era realmente é a “Meiji”.

Meiji na verdade significa “iluminado” em japonês (fonte: wikipédia, reclame com ela se não estiver certo). Então estamos falando de uma “Era iluminada”.

Entrou então o jovem D. Pedro II Mutsuhito pra trazer a “era iluminada” ao Japão.

A prioridade era acabar com aqueles Tratados desiguais, como clamado pela população, unificar o Japão, modernizá-lo. Mas você lembra que também clamaram que o Japão voltasse a se isolar, né?

PLOT TWIST: o Imperador não isolou o Japão coisa nenhuma

Apesar de ser uma “plot twist”, o que aconteceu na Era Meiji não tem nada de muito surpreendente pra nós que estamos habituados às eleições no Brasil onde governantes sempre prometem 78 coisas e não cumprem 77 delas: o Imperador Mutsuhito não atendeu a esse clamor específico de setores da população e não isolou o Japão coisa nenhuma.

Pelo contrário: foi a Era Meiji que ficou marcada justamente como a época em que o Japão se abriu definitivamente ao mundo.  O Imperador queria um Japão unificado, aberto, moderno. Um processo de “ocidentalização”, mas mantendo e valorizando as tradições japonesas.

E eu particularmente fico tentando imaginar qual cara fizeram os japoneses que gritaram “VOLTA, IMPERADOR” porque queriam que o Japão se isolasse, e aí o Imperador entrou e faz o Japão se abrir mais ainda, e você?

E o que mais Mutsuhito fez, que a Era ficou tão “iluminada” assim?

O Imperador abriu o país pro mundo, unificou o Japão, investiu na industrialização e modernização do Japão, que era até então um país feudal, enviou japoneses pro exterior pra aprenderem “o que esses estrangeiros safados andam aprontando lá fora” – e levarem o conhecimento de volta pro Japão, pra que no futuro o Japão aprontasse exatamente da mesma forma; promulgou uma Constituição, formou um exército (que “herdou” muitos Samurais, que agora, na Era Meiji, não tinham mais como “samuraizar”) e mais uma porrada de coisa.

mangas animes e filmes sobre a era meiji
Kenshin, por exemplo, não podia mais usar sua espada nem se quisesse (imagem daqui)

E foi a partir do governo de Mutsuhito, da Restauração Meiji e da abertura do Japão ao mundo, que o país começou a trilhar o caminho que o levaria ao status de grande Império e potência mundial – e em alguns anos, ele se tornaria, inclusive, o primeiro país da Ásia a conseguir vencer um país europeu numa guerra (a Rússia, que foi massacrada na Guerra russo-japonesa).

E agora vem a parte que interessa a quem ficou com preguiça de ler e talvez já pulou logo pra cá:

9 filmes, animes, livros maneiríssimos que tratam disso tudo aqui que você leu e agora você vai assistir/ler achando tudo mais interessante:

As obras listadas a seguir, além de muito boas, podem te ajudar a visualizar melhor tudo que acabou de ler – e de forma muito mais envolvente/emocionante:

  1.  O anime “Samurai X” (tem adaptação em filme também), que envolve o fim do Xogunato Tokugawa, a Era Meiji, e Kenshin, um Samurai arrependido das vidas que tirou lutando pela Restauração Meiji, que agora quer se redimir;
  2. O mangá Rurouni Kenshin – crônicas da Era Meiji, que é a mesma história do Kenshin aí em cima, se você preferir ler em mangá, e provavelmente vai preferir mesmo porque a versão em mangá é considerada a melhor de todas pelos fãs (mas eu mesma nunca li, só vi o anime e live action, falha grave minha);
  3.  O filme “O Último Samurai”, que você provavelmente já assistiu porque ao que tudo indica eu era o último ser humano a não ter assistido;
  4.  O livro “Silêncio“, uma obra prima pra ler se você tiver coragem e disposição pra se emocionar e quiçá chorar alguns barris, que se passa durante a perseguição aos cristãos no Xogunato Tokugawa;
  5. O filme “O Samurai do entardecer” que envolve o desprestígio e o rumo tomado pelos Samurais ao fim do Xogunato Tokugawa/Era Meiji;
  6. O livro “Musashi”,  outro clássico absurdo. Existem um total de 0,0 seres humanos que não gostam desse livro, que se passa no início do Xogunato Tokugawa, sob a perspectiva de um samurai lendário… e se você prefere Mangá do que livro:
  7. O Mangá “Vagabond”, que também gira em torno de Musashi, e também trata da batalha imediatamente anterior ao Xogunato Tokugawa;
  8. O filme “Zatoichi”, que se passa durante o Xogunato Tokugawa E É UM FILME INCRÍVEL;
  9. O filme “Os sete Samurais” que também se passa no Xogunato Tokugawa E TAMBÉM É UM FILME INCRÍVEL

E basicamente é isso aí que eu lembro agora, mas se lembrar de mais vou aumentando a lista (pode inclusive sugerir, vou gostar bastante).

Já assistiu/leu algum deles? Recomenda algum outro sobre a Era Meiji ou o Xogunato Tokugawa? Gostou da história toda? Fica à vontade pra mandar nos comentários, até porque realmente aceito recomendações, nem tinha visto “O Último Samurai” até hoje.

Até o próximo post!


Leia também: Países que já tretaram – p. 1: de onde vem a rivalidade entre o Brasil e a Argentina? 8 momentos de babado, confusão e gritaria

Uma história bizarra por trás do nome de uma cidade linda: Florianópolis

4 comentários sobre “Como o Japão deixou de ser um país isolado? (bônus: filmes, animes e livros MANEIRÍSSIMOS sobre a Restauração Meiji e o Xogunato Tokugawa)

  1. Incrível! Foi tipo um History of Japan (YouTube) com menos efeitos e mais detalhes 👏 Adorei.
    E seria o cogumelo shimeji um cogumelo shi-iluminado? Posso equilibrar com arroz negro ou melhor reforçar com carne de sol?

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s