Países que já tretaram – p. 1: de onde vem a rivalidade entre o Brasil e a Argentina? 8 momentos de babado, confusão e gritaria

Se a gente pergunta pra alguém por que a rivalidade entre o Brasil e a Argentina começou, é possível que a resposta seja “foi por causa do Pelé e do Maradona”. Muita gente associa essa rixa imediatamente ao futebol.

Mas essa rivalidade entre brasileiros e argentinos existe desde muito antes de Maradona e Pelé darem um chute numa bola. Aliás, muito antes de Pelé e Maradona nascerem.

Antes até do próprio Brasil e da Argentina existirem.

 

(aviso: esse gif vai se repetir muito ao longo do texto, que tá cheio de Plot Twist)

De onde veio, então, essa rivalidade tão grande entre Argentina e Brasil? Vamos tentar entender agora, com uma retrospectiva de 8 momentos “tiro, porrada e bomba” (ou “babado, confusão e gritaria”, vai da sua preferência) entre os dois.

Como surgiu a rivalidade entre argentinos e brasileiros? – 8 momentos dignos de novela

Pra quem quer um resumo, dá pra dizer, de forma bem simplificada que nossa rivalidade foi “herdada” (ô herança ruim) de portugueses e espanhóis.

Mas a forma que essa história se desenrolou é tão interessante que só um resumo não é tão proveitoso.

Portugueses e espanhóis basicamente disputavam territórios descobertos aqui no “Novo Mundo”, lembra? O Tratado de Tordesilhas serve bem pra nos lembrar disso: um tratado que, basicamente, definia a partir de uma linha que “essa parte é minha, essa parte é sua, tá?”.

por que rixa entre brasil e argentina tratado de tordesilhas
Curiosidade: essa aí é a cidadezinha de Tordesilhas, onde o tratado foi assinado, lá em 1494. Ela fica a umas 2 horas de Madrid – onde, aliás, outro tratado importante pra configuração do Brasil se firmou (o Tratado de Madrid, que foi visionário em termos de como seria o mapa país até hoje)

Então temos de um lado os portugueses que colonizaram o Brasil, que já não iam muito com a cara dos espanhóis – e de outro lado, os espanhóis, que colonizaram a Argentina já não indo muito com a cara dos portugueses.

Isso aí já nos ajuda a entender um pouco as origens da rixa da Argentina e Brasil.

Mas ainda não explica o suficiente por que a rivalidade do Brasil e da Argentina foi só se intensificando.

Então vão aqui 8 fatos históricos que podem ter contribuído muito pra aguçar a rivalidade entre os países.

rivalidade argentina e brasil como surgiu
“Essas nações vão se meter em confusões eletrizantes que vão emocionar você e toda sua família”

1. A rixa entre o Brasil e a Argentina existe antes mesmo do Uruguai existir – e se não fosse por essa rivalidade, talvez o próprio Uruguai nem existisse

Pra quem não lembra: o Uruguai (que na época nem se chamava assim, então quando você ler “Uruguai” aqui, leia “Província Cisplatina”) já “fez parte” do Brasil. Quer dizer, a história é mais complicada do que isso: o Uruguai “fez parte” do Brasil, depois não fez mais parte, depois fez parte, depois não fez mais…

O que importa aqui é: o movimento separatista uruguaio surgiu com a ajuda de um “empurrãozinho” da Argentina – que no começo desse furdunço também nem se chamava Argentina, então quando você ler “Argentina”, leia “Províncias Unidas do Rio da Prata”. Mas voltando ao assunto…

A Argentina bancou o movimento separatista do Uruguai, e tropas argentinas lutaram ao lado dos uruguaios contra o Brasil e tudo.

Vai lá, separa do Brasil mesmo“, disse a Argentina no pé do ouvido da então Província Cisplatina.

“E por que a Argentina fez isso? Ela estava preocupada com os sentimentos do Uruguai?”

Não.

Quer dizer, talvez alguém na Argentina estivesse genuinamente preocupado que “puxa vida, o Uruguai precisa declarar sua independência, pobrezinho”, mas não foi isso.

Basicamente a Argentina incitou o separatismo porque ela queria o Uruguai pra ela. Não pro Brasil.

(de novo)

[insira sonoplastia de reviravolta no enredo]

E tirando o poder do Brasil de lá, ficava mais fácil tomar a Província.

Na verdade, toda a história do Uruguai é permeada de uma disputa entre espanhóis e portugueses (olha aí, de novo isso) por todo aquele território, a “Banda Oriental”.

No Tratado de Madrid, por exemplo (que citei na legenda da foto de Tordesilhas lá em cima) o tópico “quem vai ficar com Colônia del Sacramento?” foi um dos principais – e  Colônia acabou ficando com os espanhóis, em troca dos Sete Povos das Missiones.

Mas a Província Cisplatina no fim das contas não queria ser da Argentina e nem do Brasil. Queria ser Uruguai. Pronto.

A título de curiosidade, foi nessa campanha de desanexação do Uruguai que surge a figura do General Fructuoso Rivera. Lembrou desse nome? Ele não te é estranho se você já foi pra Montevidéu, porque tem uma avenida enorme (ENORME) com o nome dele na capital.

Pera, eu vou fazer melhor do que escrever “enorme” duas vezes (e uma em caixa alta), vou mostrar no Google Maps:

De onde surgiu a rixa Brasil e Argentina
Uma Avenida que cruza quase de uma ponta da cidade pra outra

“E por que deram o nome dele pra uma Avenida tão grande?”

Por vários motivos: primeiro, o cara foi figura fundamental nessa campanha de independência, chamada de campanha dos “Trinta e três orientais” – e grave esse nome, porque também tem uma praça em Montevidéu que chama Treinta y tres orientales, que fica na Avenida 18 de julho.

E por que a Avenida chama 18 de julho? Porque essa foi a data de surgimento da primeira Constituição do país, 2 anos depois – quando Rivera se tornou o primeiro presidente do Uruguai. Alá, a história tá toda nas ruas de Montevidéu.

(3)

Mas bom, voltando ao assunto, em 1828, o Uruguai virou Uruguai, depois desse furdunço todo entre o Império do Brasil e a Argentina.

Quer dizer, claro que a coisa não foi simples assim, o conflito se estendeu de 1825 a 1828, quando a Inglaterra então interviu diplomaticamente em uma Convenção que determinou a criação do estado uruguaio.

Vai vendo aí: o Brasil e a Argentina nem conseguiram se entender sozinhos, a ponto da Inglaterra ter que se meter pra falar “vamos parar com a palhaçada, larguem o Uruguai” – até porque a Guerra que se estendia há tanto tempo prejudicava por tabela os negócios da Inglaterra por aqui.

“Tá, volta pro assunto rivalidade Argentina x Brasil agora…”

Nessa convenção, o mediador inglês (Lord Ponsonby) até usou o termo (grave isso:) que o Uruguai ali entre Brasil e Argentina seria “um algodão entre dois cristais“.

O que raios isso significa?”

Experimenta bater um cristal em outro pra ver o que acontece.

O Uruguai seria então um lindo e formoso algodãozinho protegendo o atrito entre o cristal brasileiro e o cristal argentino. E isso já mostra, de novo, como a rivalidade entre Brasil e Argentina era notada desde aquela época.

Outra curiosidade: uma vez, em uma entrevista, perguntaram pro Mujica se ele se dava melhor com Dilma ou Kichner.

Mujica respondeu “me dou bem com as duas, o Uruguai é um algodão entre dois cristais” e a notícia saiu em vários jornais – agora vem a parte engraçada:  – jornais esses que acharam a frase impressionante e inédita – mas agora você já sabe que ela foi dita há muito tempo por Lord Ponsonby, durante aquela Convenção Preliminar de Paz, mas não deram os créditos pra ele e acharam que foi o Mujica que inventou a expressão.

(4)

Interessante, né? A gente vai tentar descobrir onde se iniciou a rivalidade entre Brasil e Argentina e de repente tá descobrindo a origem dos nomes de ruas no Uruguai e de frases que saíram no jornal.

2. Outro momento de rixa: anos depois, foi o Brasil que defendeu o Uruguai… da Argentina

Outro motivo pros brasileiros torcerem o nariz pros argentinos tem nome: Juan Manuel José Domingo Ortiz de Rosas.

E que nome grande.

Rosas (vou chamar assim na intimidade porque como você pôde verificar, o nome inteiro dele é enorme) foi um ditador que, basicamente, se pudesse pegava a América do sul toda pra ele: o cara queria a Argentina, o Paraguai, a Bolívia e… o Uruguai.

O Uruguai, cara, logo ele, nosso algodãozinho, que tinha acabado de conseguir a independência. E depois Rosas ainda quis um naco do Rio Grande do Sul também. Sujeito guloso, realmente.

E como combater a fome desse rapaz?

O Brasil declarou ajuda ao Uruguai contra o exército argentino – e aí a Argentina declarou guerra ao Brasil também. Pronto.

Vamos resumir tudo (um resumo porco) em: Argentina perdeu. E temos aí mais um momento de baita rivalidade histórica.

3. E aí teve mais uma guerra… dessa vez a do Paraguai (e um empréstimo nunca pago)

Cara, coitado do Uruguai, sério mesmo. Mal virou país e não teve nem tempo pra respirar.

Continuou sendo disputado, dessa vez internamente (já não bastava a galera de fora querendo tomar ele) por dois grupos: os Blancos e Colorados. Só imagino o Uruguai falando “pára a Terra que eu quero descer”, os caras não deviam aguentar mais.

Vai uma outra curiosidade aqui: o Partido Blanco e o Partido Colorado, que disputavam o poder já nessa época, existem até hoje no Uruguai. São alguns dos partidos mais antigos do planeta.

A disputa na época entre esses dois era intensa, num nível que devastou o país, de tanto conflito armado. Os Colorados fecharam uma aliança com o Brasil, e os Blancos tinham uma aliança com o ditador do Paraguai na época, Solano López.

Mas dessa vez, você deve saber, a Argentina ficou do lado do Brasil e do Uruguai (e daí a guerra também é chamada de “Guerra da Tríplice Aliança”) contra o Paraguai.

O resto da história a gente já sabe, com versões bem diferentes dadas por cada historiador. Se você tiver interesse, o livro “Maldita Guerra” do Doratioto é extremamente rico de informação sobre a guerra do Paraguai. Isso aqui é um blog mais focado em viagem, verdade, mas dá pra viajar lendo o livro dele.

E já que falei em “no fim das contas“: durante essa guerra o Brasil concedeu diversos empréstimos à Argentina e ao Uruguai.  E ironicamente, no fim das contas não houve “fim das contas” porque os empréstimos não foram pagos nunca.

E vai ver esse foi mais um motivo pra birra entre Brasil e Argentina. O Brasil pensando “alá, me deu calote”.

Fim da rivalidade?

É de se achar que “ficaram os dois do mesmo lado na guerra contra o Paraguai, então os dois se entenderam depois disso, né?”.

Não.

Rolou mais furdunço depois.

4. “Toca aqui – não, pera, mudei de ideia”

Em síntese bem furreca: O Rosas propôs uma aliança a Pedro II. Pedro II assinou. Mas na hora de ratificar o tratado, rolou basicamente um “pensando melhor, não quero mais não” da parte de Rosas.

Pedro II ficou ofendidíssimo. Algo tipo: como assim você pergunta se eu quero uma aliança contigo, e quando eu falo que quero você diz “eu que não quero mais agora”?

E temos aí mais um motivo pra rixa Brasil X Argentina na conta.

5. Um telegrama safado

Lá pra 1888 dá pra se dizer que a rivalidade entre a Argentina e Brasil vinha sendo superada (dá?), mantendo-se só a rivalidade natural entre os dois maiores países na América do Sul.

Machado de Assis até escreveu pra um jornal carioca da época o seguinte:

“(…) A nação argentina chegou ao ponto em que se acha, próspera, rica, pacífica, naturalmente ambiciosa de progresso e esplendor. Esqueceu a opressão, desaprendeu a caudilhagem; conhece os benefícios da liberdade e da ordem. Vinte anos apenas; digamos vinte e oito, porque a campanha de Mitre foi o primeiro passo dessa marcha vitoriosa. Agora, no dia em que os argentinos celebram a sua festa constitucional, lembro-me daqueles tempos, e comparo-os com estes, quando, em vez de soldados que os vão auxiliar a derrocar uma tirania odiosa, mandamos-lhe uma simples comissão de jornalistas, uma embaixada da opinião à opinião; tão confiados somos de que não há já entre nós melhor campo de combate. Oxalá caminhem sempre o Império e a República, de mãos dadas, prósperos e amigos.

Bonito, né?

Mas infelizmente alguns incidentes aqui e ali continuaram fazendo a rixa entre o Brasil e a Argentina perdurar.

Um caso famoso é o do “Telegrama 9”. A Argentina interceptou um telegrama que o Brasil enviou pro Chile. Zeballos, ministro do exterior da Argentina na época, distorceu o telegrama e saiu publicando basicamente que “o Brasil falou coisas terríííveis da Argentina no telegrama, vocês nem imaginam”.

O caso foi resolvido por Rio Branco, que decidiu publicar o telegrama na íntegra e decifrado no Diário Oficial, provando que “falamos p*rra nenhuma, tome tenência”.

rivalidade brasil argentina
Ponto pro Barão do Ryu Branco (peço desculpas por não resistir a um trocadilho completamente abestalhado)

6. “Por que cê não quer mais? – O retorno”

Mais tarde, outro momento de desentendimento: Perón tentou reviver a ideia de uma aliança ABC, entre Argentina, Brasil e Chile, mas o Brasil não tava muito interessado naquele momento.

Cabe ressaltar que em duas tentativas anteriores, anos antes, quem não estava interessada no ABC era a Argentina. Observa só que parece até casal bolinha pula pula que vai e volta.

Isso, obviamente, gerou um novo afastamento entre Brasil e Argentina.

7. “Pra que cês tão botando essas tropa aí?”

Outro caso foi durante a Segunda Guerra, quando a neutralidade da Argentina e simpatia pelo nazismo nutrida em alguns setores do país acabou fazendo os EUA enxergarem a Argentina como um “mau vizinho” na América. Os EUA apoiaram então o Brasil a militarizar suas fronteiras com a Argentina. A Argentina obviamente ficou ressabiada – até porque ela sempre foi ressabiada com o Brasil, mesmo quando o país não representava ameaça alguma.

8. “Cês querem afogar a gente?”

E falando em ser ressabiada, teve também a questão de Itaipu, essa é famosa. A Argentina achava, basicamente, que a Usina de Itaipu poderia ser uma “arma” contra ela. Que se o Brasil quisesse, poderia inundar a Argentina. O fim da história a gente já conhece.

Conclusão sobre a rivalidade entre o Brasil e a Argentina

O que dá pra concluir disso tudo é que a rivalidade histórica entre os dois países vem de longe, mas bem longe mesmo e atualmente já não faz sentido. Mas continuou se esticando e se transmitindo, por pura birra, a absolutamente tudo: até ao futebol.

Então temos que o futebol, que naturalmente já incita certa rivalidade (ainda mais quando o outro país já se envolveu em guerras contra você), pode ter sido uma transmissão da rixa histórica não muito bem superada e às vezes reforçada por um ou outro incidente contemporâneo. Interessante, né?

Enfim: se você tem alguma birra com a Argentina, pode deixar de lado. Não estamos mais em guerra, temos um algodãozinho querido entre nós, e tanto o algodão quanto o cristal produzem excelentes alfajores e doces de leite pra adoçar ainda mais nossas relações (e nós produzimos pudim, brigadeiro, paçoca e queijo com goiabada, e assim fica tudo muito doce e maravilhoso).

Até o próximo post com mais treta entre países desvendada. Ou não. Eu posso mudar de ideia e falar de receita de pudim.

Atualizando: vim do futuro pra contar que no post novo não falei nem de treta entre países, nem de pudim. Acabei falando de instagram.

6 comentários sobre “Países que já tretaram – p. 1: de onde vem a rivalidade entre o Brasil e a Argentina? 8 momentos de babado, confusão e gritaria

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