A história de Jucimara, a blogueira de viagem que nem viajava tanto assim (ou “não desanima, a vida não é perfeita pra ninguém”)

A vida às vezes parece que é uma grande competição bizarra de “quem tem mais problema”, onde todo mundo quer provar que os seus são os piores (vai saber por quê) e se convencer que a situação de todos ao seu redor tá melhor.

Isso não faz o menor sentido, mas fato é que se um dia você desabafar sobre um problema no trabalho, vai ter alguém pra imediatamente dizer “mas pelo menos você tem um trabalho, pior sou eu que tô desempregado”.

Se você fala que tem problema na família, alguém também vai dizer “agradeça a Deus por ter uma família” (de fato, tá certo).

E até se você falar “tô arrasado(a), toda minha família morreu num acidente de avião”, vai ter um fariseu pra comentar “pelo menos sua família tinha grana pra viajar”.

“pare com isso, por favor”

Ironicamente, embora pessoas sempre diminuam o problema das outras, elas “hiperbolizam” os seus próprios problemas.

Na base da cadeia alimentar de “quem tem direito a ficar triste com problemas” estão as pessoas que viajam. Todo mundo acha que, se você foi pra Búzios no último feriado, sua vida certamente é melhor que a da pessoa, e você não pode desabafar nem que seu cachorro morreu.

Com tudo isso, vamos descobrir a história de uma blogueira de viagem, a Jucimara. E talvez o texto ajude a entender que vale mais a pena valorizar nossa vida do que ficar valorizando a de outras pessoas que a gente nem conhece.

A história de blogueiros de viagem que não tinham a vida perfeita

Era uma vez Jucimara, uma blogueira de viagem que nem viajava tanto assim, já que andava meio dura. Mas quando viajava, Jucimara sempre escrevia uns relatos das viagens, não só pra ajudar as pessoas a fugirem de umas roubadas, mas pra se ajudar também (a lembrar de tudo depois, a sorrir enquanto escrevia – e a ter futuramente um complemento de renda com o blog, que Jucimara de boba não tinha nada).

Isso fazia muita gente achar que a vida de Jucimara, “tão cheia de viagens”, devia ser semelhante à vida das princesas da Disney.

“Toda vida de blogueiro de viagem é perfeita” – Valdemira Renata, uma leitora doce, porém desavisada, pensava.

“você não sabe nada da vida, Valdemira”

E todo mundo quer ser blogueiro de viagem. Problemas em Bora Bora parecem ínfimos quando comparados com problemas no Brasil.

Plot twist: pessoas tem problemas – inclusive as que viajam todo feriadão pra Paris

Um belo dia, a vida de Jucimara, que já não era perfeita – tendo em vista que nenhuma vida é – decidiu se afastar ainda mais dos filmes da Disney, e virar um mix interessantíssimo de filme de terror com tragicomédia.

De um dia pro outro na sua família, uma pessoa que ela amava morreu, outra adoeceu gravemente, outra teve um surto psicótico e tentou matar Jucimara e agredir sua mãe repetidas vezes, outra entrou em depressão, outra deu calote brabo numa pessoa da família, e outra perdeu a lucidez em razão de tanto problema.

E concomitantemente, a família entrou em crise financeira.

“TÔ AMANDO ESSE FILME”

E você achando que quem viaja não vive perrengue nenhum, mas Jucimara, embora tivesse ido pro Caribe nas últimas férias, na verdade vivia o seguinte “enredo da Disney”: ela e as pessoas que ela mais amava sofrendo com doenças mentais, físicas, agressões, medo do futuro, dificuldades em mil aspectos, e uma situação financeira tão caótica que não permitia resolver nenhum desses aspectos. Stephen King se orgulharia se tivesse escrito, embora isso também seja tão tragicômico que lembre aquele filme “Entrando numa fria maior ainda”.

Jucimara, nos últimos tempos, andava tão distraída pensando “p*ta m*rda, como vou resolver essa p*rra toda e tirar a família dessa m*rda do c*ralho” – e isso porque ela nem falava muito palavrão – que acabava levando muito esbarrão no meio da rua e quase sendo atropelada de tão avoada.

“Mas Jucimara devia estar ótima mesmo assim, porque pessoas que viajam estão sempre ótimas”.

Jucimara oscilava todos os dias entre ver graça em tudo que pudesse ver graça, ou então chorar encolhida na cama de noite, com a cara bem enfiada no travesseiro pra abafar esse choro (que atire o primeiro bubbaloo de banana quem nunca fez isso – e estou escolhendo esse sabor porque foi edição limitada e aí você não vai poder atirar mesmo que não faça) já que não queria a família – já lascada o suficiente – preocupada com ela.

Como qualquer pessoa normal, inclusive as que não viajam, Jucimara até conseguia abafar o choro, mas a parte de disfarçar o olho vermelho e inchado no outro dia era mais difícil, e todo mundo achava “que cara de cansada, essa aí virou a noite assistindo netflix”.

E Jucimara sequer tinha netflix.

“mas como assim não tem netflix, isso não existe”, Valdemira já logo se alvoroçou

A ironia é que Jucimara ainda recebia eventualmente mensagens muito bonitas, DMs e e-mails queridos dizendo “quando crescer quero viajar como você!”, “você é uma inspiração pra mim!” e “qual seu segredo?”.

Muitas vezes Jucimara tinha vontade de dizer “meu segredo é que minha vida não é um filme da Pixar e volta e meia eu choro em posição fetal durante o banho, e o seu?”.

“sua vez agora, conta seu segredo”

Ou “por favor, não queira ser como alguém que tem uma vida toda bagunçada, mas por acaso economiza bastante pra conseguir viajar de vez em quando e só escreve sobre isso”.

Mas Jucimara não respondia nada disso, então as pessoas continuavam achando que quem posta fotos bonitas de viagem tem a vida perfeita (“menos eu”, Valdemira completava).

“Mas tenho CERRTEZA que blog de viagem dá muita grana – e que pra viajar tanto tem que ser rico”

Quanto à celestial afirmação que blog de viagem dá muita grana, Jucimara (e qualquer blogueiro de viagem) bem que gostaria que fosse verdade, mas a real é que se em um dia 100 leitores clicam num link parceiro de um blog, só 1 fecha uma reserva, quando muito, então é difícil ficar rico a menos que você tenha mais acessos que a globo.com.

Logo, Jucimara provavelmente não era rica mesmo, e embora eu não a conheça o suficiente pra perguntar “quanto você tem na sua conta corrente, Juci?”, sei que tem um post aqui que você pode/deve ler: “Precisa ser rico pra viajar?”.

cenas da carteira de Jucimara

Esse texto mostra uma lista de sacrifícios que quem viaja bastante costuma fazer. Jucimara provavelmente faz esses sacrifícios, e esse seria o segredo da danadinha.

“Ah, mas tenho certeza que pelo menos a vida pessoal da Jucimara era como a das princesas da Disney porque quem viaja pode beijar ao pôr do sol com a Torre Eiffel ao fundo e”

Não era. Primeiro, porque Jucimara não gostava muito das princesas da Disney.

ela preferia pizza

Depois, porque Jucimara nunca foi à Paris e preferiria Galápagos, Curaçao ou a Ilha de Páscoa. Mas principalmente, porque Jucimara, como qualquer pessoa normal (de novo) já teve alguma experiência ruim. Pra agravar, ela era feito um gato arredio, daquele tipo que foge quando um ser humano pula do nada na frente dele, embora ronrone quando recebe carinho.

Em parte porque como mencionado láá em cima, alguém já tinha tentado matar Jucimara, e talvez pessoas se tornem meio arredias depois disso –  se você ainda quiser forçar a barra que Jucimara vivia num filme da Disney, acho que dá pra dizer que ela vivia na cena em que o Scar joga o Mufasa do penhasco e o Simba chora desolado.

Em outra parte porque ela não se sentia apta a se envolver com ninguém já que 1. Jucimara se sentia um “pacote completo de problema”, e “ninguém merece pedir um big mac pra viagem e depois descobrir que levou uma salada cheia de minhoca pra casa ao invés disso”; 2. Jucimara andava com mais dificuldade em enxergar o sentido em relacionamentos “românticos” do que em fazer cálculos algébricos – cabe ressaltar que Jucimara era horrível em matemática.

Jucimara (de máscara), o romantismo e a predileção por pizza

Jucimara andava mais em paz quando investia em sua plantação de pepinos, na preservação de lontras marinhas ou em outros aspectos da vida.

“A-HÁ, então Jucimara andava em paz e-“

Mas a verdade é que Jucimara nunca andava totalmente em paz.

E isso também não seria possível porque a vida nunca é perfeita, e desconfie no dia em que alcançar paz de espírito absoluta, porque aí você provavelmente morreu

bem-vindo(a) ao paraíso (certeza que é assim)

“A vida de quem viaja tanto é perfeita sim, e você deve ser amiga dessa Jucimara e tá protegendo falando que ela não é rica, pra ela não ser sequestrada!”

Não sei do que você tá falando, mas acusações à parte, embora a vida não seja perfeita (pra ninguém, nem pra quem viaja muito, deixe de palhaçada), o que importa mesmo é que volta e meia ela te rende momentos de alegria, sorrisos contínuos que fazem o maxilar doer, risadas bobas, esperança em seres humanos, esperança em si mesmo, umas descobertas boas.

Acho que é por isso que Jucimara continua gostando bastante de viver, mesmo com as intempéries do 6º parágrafo desse texto (tive que voltar lá em cima e fazer a conta).

Essa mesma vida imperfeita rende também conversas memoráveis, cenas marcantes, amizades incríveis, pessoas bondosas, oportunidades de tornar o mundo um lugar mais bacana, gente sensacional cruzando seu caminho de formas improváveis e umas viagens bem gostosas.

“AHH, COMO VIVER É MARAVILHOSO”, Valdemira se convenceu

Então, em síntese: não desanima da sua. Viajando ou não. Você fica comparando sua vida com a do sujeito exceção que ganha R$ 30.000 e viaja o mundo desde os 27 anos, mas vida nenhuma é melhor que a sua, porque só a sua pode ser sentida, bem usada e transformada por você (e o cara que faz essa grana aos 27 anos deve ter passado por muita m*rda também até conseguir isso).

E nenhuma Jucimara ou blogueira de viagem nesse mundo é melhor que você, nem mais apta ou merecedora de felicidade – inclusive, aposto que ela também compactua contigo na insônia, hábitos nocivos (às vezes ela deve ficar acordada até 4 da manhã se enchendo de goiabada ou chocolate Nestlé Duo quando tá na promoção nas Lojas Americanas), e 70 mil questionamentos diários sobre o que vai fazer da vida.

Logo, valoriza sua vida, mesmo se também não fizer a menor ideia do que vai fazer com ela – e nem se nas próximas férias você vai conseguir ir pra Paris.

(Mas já dei o bizú: supere Paris, vá pra Cartagena)


Leia também: Como o vício em viajar pode te fazer mal (e ferir as pessoas ao seu redor).


1 viagem, 2 visões é parceiro da Booking, e se você estiver com viagem marcada (vai que você é a Jucimara que chegou aqui no post), pode reservar seu hotel ou hostel por aqui, que não paga absolutamente nada a mais por isso, e de bônus ainda faz alguém dar uns pulos de alegria do outro lado (sério, eu dou mesmo, qualquer dia filmo).

Até o próximo post, fica à vontade nos comentários e se quiser chega lá no facebook e instagram!

 

11 comentários sobre “A história de Jucimara, a blogueira de viagem que nem viajava tanto assim (ou “não desanima, a vida não é perfeita pra ninguém”)

  1. Bem, isso me lembrou uma história, muito, muito antiga…
    Certa vez, uma jovem blogueira de viagem estava no Vale da Lhama Sagrada, quando encontrou o Grande Profeta Paca-Lhama. A blogueirinha se aproximou do profeta, que olhou para ela e disse:

    Sinto muita angústia em seu coração, e mais angústia ainda virá, por isso, vou lhe dar um papel com uma mensagem, que você só poderá ler no dia em que você se sentir completamente sem saída, sem nenhuma esperança”

    A blogueirinha guardou o papel sem o ler, como determinou o Profeta Paca-Lhama.

    Algum tempo depois, passando por situações muito ruins, que a deixavam quase sem esperança. completamente mergulhada na escuridão, a blogueirinha se lembrou do papel que o profeta lhe havia dado e resolveu abri-lo… e lá estava escrito:

    “Pão. leite e ovos, queijo, batatas” …a blogueirinha mal podia acreditar no estava escrito, mas depois de algum tempo tentando decifrar a mensagem, ela finalmente pode entender: o Profeta Paca-Lhama havia se confundindo e lhe entregado a lista de compras do supermercado, em vez do papel com a mensagem destinada para a blogueirinha.

    Curtido por 1 pessoa

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