Calma, ninguém morreu.
Quer dizer, 30 pessoas devem ter morrido enquanto eu escrevia que ninguém morreu: 5 pacientes morrem por minuto só por erros de diagnóstico no Brasil ou medicação errada; 1 morre por acidente cardiovascular, e em uma estimativa aproximada, um total de 60 pessoas morrem por minuto no mundo todo. Então, na verdade, gente pra caramba morreu enquanto você lia esse texto que começou dizendo que ninguém morreu (e mais gente ainda começou a viver alguma fase do luto agora mesmo).
O que quis dizer é que, ninguém específico acabou de morrer, que tenha me motivado a escrever esse texto (ou um livro inteiro sobre isso — que inclusive te convido a ler nesse link aqui).
Ocorre que, se a cada minuto 60 pessoas morrem no mundo, temos aproximadamente 120 pessoas vivendo um dos piores momentos possíveis nos últimos segundos: o luto (e isso considerando que essas 60 pessoas mortas eram queridas por apenas 2 pessoas, o que é bem difícil).
São 120 pessoas a cada minuto lidando com a pior notícia de suas vidas. Um dia já estivemos entre elas (ou vamos estar). E embora todo mundo já tenha ouvido falar sobre as fases do luto (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação), entender e identificar essas fases dentro dos nossos próprios comportamentos é mais difícil. Ou seja: talvez você esteja em um estágio do luto e nem saiba. E esse luto nem precisa ser pela morte.
Então vale a pena entender quais são os estágios do luto que vivemos nesses momentos, e identificar em qual fase alguém pode estar e quanto tempo falta pra passar. Ou se é que vai passar (spoilers: parece que não, mas vai).
Mas primeiro…
Quem definiu as fases do luto?
Quem nos ajudou nessa missão de compreender com tanta clareza as fases do luto é uma psiquiatra suíça que, um dia, talvez enquanto estivesse comendo um chocolate Lindt delicioso, decidiu escrever um livro sobre um tema não tão gostoso assim, chamado “Sobre a Morte e o Morrer”, há mais de 50 anos (pasme: Lindt já existia naquela época, porque essa marca existe desde antes do Brasil virar república).
Foi graças a essa psiquiatra, pioneira no tratamento de pacientes em estágio terminal, que hoje entendemos melhor o nosso próprio funcionamento mental e emocional diante do luto. Vamos entender melhor, então, com base nos ensinamentos valiosos que Elisabeth Kübler-Ross nos deixou, qual estágio do luto podemos estar vivendo agora, mesmo sem saber.
Como saber se estou na primeira fase do luto? (O estágio da negação)
Fase do luto também conhecida como “rindo de nervoso”.
Sabe quando você recebe uma notícia tão ruim que até ri? Essa pode ser a fase da negação atuando. É tudo tão inacreditável que parece piada. Passamos por essa fase porque, da mesma forma que precisamos “aquecer” nosso corpo antes de um exercício intenso, também precisamos “aquecer” nossas mentes antes de um baque igualmente intenso. E isso aqui vale pra todo tipo de luto: a morte de quem amamos, o diagnóstico de uma doença grave, a demissão de um emprego, a perda de um bem de grande valor, uma notícia ruim inesperada, enfim, qualquer despedida significativa.
Uma forma de identificar se você está nessa fase do luto, além do “chorriso”, é a dificuldade de entender (e agir) de acordo com o que realmente está acontecendo. Nesse momento, também pode ser comum a pessoa enlutada afirmar que “está tudo ótimo” ou que está “lidando bem” com a notícia mais catastrófica da sua vida.
Outros sintomas dessa fase do luto:
Ao receber a notícia que sua mãe faleceu, você ainda tenta ligar pra ela.
Seu filho partiu (de qualquer forma que seja), mas você ainda mantém a decoração do quarto dele.
Seu cachorro morreu, mas você não consegue doar a caminha, os brinquedos, a coleira, a ração, os remédios pra artrose, ou a tag de identificação escrito “Thor” com um raiozinho.
Você acabou de ser diagnosticado com uma doença grave e que exige repouso, mas marca o crossfit para o outro dia de manhã e confirma a presença no Iron Man.
Um relacionamento se encerrou, e você alimentou esperança, ao invés de aceitar que a pessoa não quer estar com você.
Seu trabalho te dispensou, e ao invés de iniciar uma corrida contra o tempo (e a data de vencimento dos boletos), procurando outra forma de renda, você dedica um longo tempo a fazer um post de declaração sobre como aquele emprego foi maravilhoso e só um “ciclo que se encerra” no LinkedIn, agradecendo a experiência da demissão sem aviso prévio.
Alguém dá todos os sinais que não faz questão de manter contato contigo (ou não dá sinal nenhum, porque simplesmente sumiu), mas você insiste em uma amizade unilateral e monologal.
Ou sua filha se tornou uma mulher, mas você ainda compra pijamas da Peppa Pig e Barbies pra ela (embora Barbies tenham realmente se tornado itens de colecionador de tão caras).
Existem realmente diversas formas de luto inimagináveis, e ainda mais formas de negá-lo nesse estágio inicial.
O que não existe, infelizmente, é uma estimativa acertada de quanto tempo você leva para sair dessa fase do luto (que pode levar semanas, meses ou anos), mas o fato é que, enquanto a negação persistir, mais tempo a pessoa leva a passar pelos próximos estágios e seguir adiante.
Começar a separar a ração do Thor para doação (antes que saia do vencimento), por mais doloroso que seja, pode ser um bom primeiro passo para quem está nessa fase do luto se ajudar (e ainda ajudar outro cãozinho). Talvez começar a procurar outro emprego. Talvez começar a pensar em outra destinação para aquele quarto, agora vazio. Tudo isso faz parte do processo no luto (às vezes lento e doloroso) de aceitar a realidade.
Mas a fase da “aceitação” no luto, em tese, só chega daqui a 4 estágios (ou não, porque essas fases não ocorrem necessariamente em sequência).
Vamos à próxima etapa, então, igualmente complicada e dolorosa: para você e para quem lidar com as consequências.
A segunda fase do luto: a raiva (e pra alguns também é a fase da culpa)
Também conhecida como: você com raiva do mundo, se questionando “por que logo agora?”, “por que justo comigo?”, ou descontando suas frustrações em gente que não têm nada a ver com isso. Por conta disso, é uma das fases do luto mais fáceis de identificar.
Essa fase pode abalar todas as suas relações e aspectos da sua vida, a menos que você desenvolva autocontrole e força suficiente.
Há quem desconte a raiva até em coisas e quebre pratos, por exemplo (e às vezes, essa pode ser a melhor – ou menos pior – das hipóteses, diante da possibilidade de descontar ira em outras pessoas ou em si mesmo). Há quem busque culpados para o próprio luto. E há quem culpe tudo e todos logo, sem critério, como quem tem uma minigun de culpa mirada para qualquer um (por isso essa também pode ser chamada de fase da culpa no luto).
A pessoa revoltada com a situação de luto pode acabar direcionando sua revolta às pessoas que não têm nada a ver com isso, ou até mesmo que também estão vivendo o luto, ou momentos difíceis. Em uma família que vive o luto coletivamente, por exemplo, acreditar que a própria dor dá aval para agir de forma destemperada com todos, acaba gerando ainda mais dor em quem também está sofrendo ao seu lado, e agora precisa lidar com 2 problemas: a dor da perda, e a dor de uma pessoa em fase de raiva que acha que sua dor é a maior de todas, e tem direito a extravasar a raiva em pessoas, ao invés de extravasar em um saco de boxe.
Essa fase pode durar menos do que a fase da negação, até porque é insustentável (se alguém passar muito tempo nela e descontando tudo externamente, pode acabar sendo preso). Nessa fase, além da importância de desenvolver força e autocontrole, é necessário vencer um certo egoísmo que pode surgir nesses momentos de luto, levando à vitimização. Um exemplo disso é quando alguém que amamos está muito doente e sofrendo com sintomas de uma doença terminal, mas nos colocamos em primeiro lugar, nos questionando, com raiva do mundo, “por que isso está acontecendo comigo?” e tornando tudo sobre nós mesmos.
A terceira fase do luto: a barganha
A fase do luto mais difícil de entender como funciona é a fase da barganha. É que essa fase é um pouco inviável quando a morte já ocorreu, mas, em síntese, é o estágio em que a pessoa em luto começa a fazer muitas promessas e tentativas de negociação. Ela promete que tudo vai mudar. Tenta negociar com o Poder Superior ou com o Universo, ou faz apostas consigo mesma.
“Se eu conseguir subir os 500 degraus daquela escada, meu filho vai ficar bom.” “Se minha esposa voltar, eu vou mudar.” “Se eu comer 10 batatas em 2 minutos, ela volta pra mim.” “Se quem eu amo for curado, eu paro de comer jaca pro resto da vida.” Foi também certamente essa fase que inspirou a música que diz “Volta, Rita, que eu perdoo a facada”.
Muitas vezes, isso não faz muito sentido mesmo, mas da mesma forma que uma pancada na cabeça nos deixa tontos, um baque forte pode deixar algumas pessoas atordoadas e sem senso de direção. Se você anda se sentindo meio perdido e desnorteado, prometendo mais coisas do que o normal, mendigando ou negociando o inegociável, ou se está ouvindo muita música no estilo de “Volta, Rita, que eu retiro a queixa”, pode ser que você esteja nessa fase do luto agora.
A quarta fase do luto: a fase da depressão
A fase mais conhecida e quase inevitável do luto, seja pela morte ou por outro tipo de perda.
Existe, no entanto, uma exceção e escapatória à essa fase, não muito conhecida, que é quando pessoas são acometidas pelo “luto adiado”. É quando elas nem se permitem viver essa fase do luto. Algo como “preciso trabalhar, não posso chorar agora”, “não tenho tempo pra tristeza, preciso cuidar da minha família” ou “preciso mostrar força para meu filho, não posso me deprimir”.
Isso pode (não é uma regra, só pode) acabar gerando uma depressão “do mais absoluto nada” no futuro. Um dia, a pessoa que estava bem simplesmente começa a chorar e não vê mais sentido em nada. É como se o luto tivesse chegado realmente com atraso e cobrando juros.
Muitas vezes não dá pra evitar (nem a depressão tempestiva, nem a retardatária), mas em todas as vezes é possível se reerguer, tratar, cuidar, buscar ajuda (e se permitir ser ajudado).
É uma fase que parece não ter fim. Mas spoilers: ela tem. E já está chegando.
A última fase do luto: a fase da aceitação
Aqui, você finalmente venceu a negação e conseguiu aceitar a realidade.
Na verdade, você venceu mais do que isso.
Venceu a negação que gera o riso absurdo ou o apego ao imaginário, venceu a barganha que leva a promessas sem sentido, venceu a raiva que leva ao fim da paciência (sua e de quem está ao seu redor), e venceu a depressão que levou embora sua motivação por um tempo. Depois de enfrentar tantas fases do luto e vencer todas, é chegada a hora de ressurgir como o Ikki de Fênix (ou a Fênix Negra,) e “colher os louros” dessa quest que você venceu: o luto.
É quando você se percebe dando um sorriso sincero e não mais forçado. Quando consegue enxergar a graça retornando às atividades que sempre amou. Quando encara a vida com um pouco mais de leveza e esperança. Quando acorda, nota que o céu está bonito pra caramba depois de tantos dias nublados e sente gratidão por isso. E quando as memórias de quem partiu são mais gratas, e não dolorosas e torturantes. É quando quem se foi descansa em paz, porque agora você também consegue deitar em paz na cama. E se você ainda não chegou nessa fase do luto, um dia vai chegar. Estar lendo aqui já é um bom indício que você está no caminho.
Obrigada por ler até aqui, e até o próximo post!
E se quiser ler também, fica o convite: Manual de sobrevivência às despedidas: Histórias reais sobre finais

