Uma história bizarra por trás do nome de uma cidade linda: Florianópolis

Florianópolis é uma cidade tão bonita e de gente tão querida que chega a ser paradoxal que tenha recebido esse nome logo após o fuzilamento de mais de 200 pessoas em Santa Catarina – e para piorar, a cidade foi batizada justamente em “homenagem” a quem mandou fuzilar.

Se você conhece a história por trás do nome de Florianópolis, já sabe do que estou falando (mas fica à vontade para continuar lendo se quiser, porque… sei lá, esse texto tem muito gif e umas curiosidades). Se não conhece, vamos descobrir agora.

De onde surgiu o nome “Florianópolis” (e de que massacre você tá falando?)

Era uma vez, em 1889, um Brasil se tornando República. E se engana quem pensa que esse é um começo bonito para a história: nosso país deixou de ser monarquia por um golpe militar movido por interesses de determinados setores influentes do país. Não foi feita a “vontade da população”, porque boa parte da população ou não sabia, ou não queria, ou nem entendia direito o que era República – e também não sabia o que raios estava acontecendo no dia 15 de novembro. Uns canhões, uns caras nuns cavalos proclamando qualquer coisa, evento estranho. Muita gente achou que era só uma parada.

história da primeira república e nome de florianópolis
Foi mais ou menos assim. [Arte: “Ovação popular ao Marechal Deodoro da Fonseca e Bocaiúva, na Rua do Ouvidor”, autor desconhecido (ou seja, desde aquela época já faziam tipo espalhar coisa no whatsapp sem os créditos de onde tirou) – O Occidente, 12º ano, vol. XI, n.º 396, 21 dez. 1889]

Quem resumiu isso tudo muito bem foi o jornalista Aristides Lobo, que inclusive era republicano, e descreveu o evento exatamente assim, num artigo publicado no Diário Popular em 18 de novembro de 1889: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava. Muitos acreditaram seriamente estar vendo uma parada”.

Além disso, Dom Pedro II também estava longe de ser um sujeito impopular. Aliás, em comparação com o período regencial que os brasileiros tinham vivido antes, o Segundo Reinado era o “paraíso“. E se continuarmos as comparações, Pedro II também era praticamente um anjo de candura perto de seu pai. Mais ponderado, com uma capacidade impressionante de articular entre liberais e conservadores, equilibrando bem o jogo de poder (até porque ele foi treinado desde pequenininho para isso), admirado por muita gente (entre elas Victor Hugo, Darwin, Nietzsche, Louis Pasteur e mais uma porrada).

Proclamação da República e história do nome de Florianópolis
D. Pedro II recebendo as notícias de “se lascou”. Dá pra notar no olhar (Arte: “Entrega da mensagem a D. Pedro II, pelo Major Solon, no dia 16 de novembro de 1889”, Galeria histórica da revolução brazileira de 15 de novembro de 1889 que occasionou a fundação da República dos Estados-Unidos do Brazil,  Urias Antonio da Silveira, 1890].

Mas bom, resumindo de forma muito porca, aconteceu isso aí: o Brasil virou República, Pedro II teve que sair do país, foi lá pra Europa, morreu num hotel em Paris (o hotel inclusive existe até hoje e tem uma placa que fala disso, esse aqui:)

história da primeira república revolução federalista e nome de florianópolis
Em qual mesa será que Pedro II tomava café? Opine. Eu acho que aquela ali perto das plantinhas (foto do próprio hotel, eu nunca nem cheguei perto de lá – nem nunca fui pra França)

Curiosidade bônus: se engana quem pensa depois de ver essa foto de um hotel lindo que ele era de gastar dinheiro horrores: Pedro II negou receber ajuda financeira do governo provisório do Brasil para prover o sustento da família imperial na Europa e não achava justo usarem o tesouro nacional dessa forma. Daí ele ainda foi punido por não aceitar (???) e baniram a família real por muito tempo do país, retirando também os imóveis que eles tinham no Brasil e impedindo de terem outros. Foi só no governo de Epitácio Pessoa, em 1920, que a lei que baniu a família Imperial foi suspendida (mas aí todo mundo já estava morto ou doente/quase morrendo).

E aqui estou eu há vários parágrafos falando de curiosidades do Brasil se tornando República e você se perguntando “quando essa daí vai contar sobre o nome de Florianópolis?”

sua provável expressão facial nesse exato momento enquanto aguarda a história do nome de Florianópolis começar

Mas a gente tá chegando lá. As histórias vão se entrelaçar.

Agora sim: o nome de Florianópolis

Após a (breve) presidência de Deodoro (e breve porque ele não aguentou mais tanto zaralho que ocorreu no país desde a proclamação da República, a pressão da oposição e renunciou), o seu vice, Floriano Peixoto, assumiu o poder e se tornou o segundo presidente do Brasil.

Herdou assim todo o furdunço que já rolava em nosso país desde o governo de Deodoro (o encilhamento, uma economia lascada e muita guerra civil explodindo no país todo) e como se não bastasse, a posse de Floriano, de bônus, causou mais furdunço ainda: muita gente não achava que era legítimo Floriano se tornar presidente e defendia que seriam necessárias novas eleições de acordo com o previsto na Constituição em vigor na época (a de 1891, nossa segunda).

Mas Floriano não quis saber e não convocou eleições coisa nenhuma.

De azul: Floriano. De laranja: pessoas esperando eleições

Eclodiram revoltas em muitos cantos do Brasil, e não sei você, mas quando falam “revolução” no Brasil, eu acabo pensado involuntariamente ou em Pernambuco, ou então no Rio Grande do Sul – mais especificamente penso em “homens de bombacha tomando chimarrão em cima de cavalos” – e você?

Uma das muitas revoltas, então, e das mais impactantes, foi a Revolução Federalista, que começou em 1893 – onde? Onde? Adivinhou, no Rio Grande do Sul.

“Mas Florianópolis não fica no Rio Grande do Sul, sua bocó”

Eu sei, querida pessoa afoita e ávida pela história de Florianópolis (e muito paciente de ter lido até aqui, obrigada), mas no meio de todo o zaralho da Revolução, invadiram Santa Catarina. Vamos falar disso agora.

A Revolução que não começou em Santa Catarina – e como ela chegou em Florianópolis

Em uma síntese bem porca: a galera que iniciou a Revolução Federalista não estava satisfeita com o presidente que foi eleito para o Rio Grande do Sul: Julio de Castilhos. Também não estava satisfeita com Floriano no poder (e Júlio de Castilhos e Floriano se apoiavam). E enfim, não estavam satisfeitos com muita coisa, pronto, vamos botar assim.

história da revolução federalista e nome de florianópolis
para quem não quiser só um resumo tão porco como o meu,  o livro “A memória da Revolução Federalista” está disponível gratuitamente no Kindle Unlimited  – ou a a preço de banana para quem preferir apoiar o autor – que traz muito mais informação, inclusive diários de quem viveu o conflito

Enquanto a Revolução Federalista estava rolando, rolava ao mesmo tempo outra revolta igualmente movida pela insatisfação com o governo de Floriano, a Revolta da Armada.

Daí em determinado ponto desse zaralho todo, porque você deve estar querendo um resumo, a galera das duas revoltas se juntou, praticamente fazendo uma fusão Dragon Ball de revoltosos e invadiu o Paraná e Santa Catarina, tomando a cidade de Desterro.

possível cena registrada de revoltosos da Revolução Federalista e da Revolta da Armada unindo seus poderes

Mataram um monte de gente. E aí Floriano respondeu matando mais um monte de gente, claro. E aí os revolucionários mataram mais gente. E Floriano mandou matar mais. E no fim disso tudo, os revoltosos não conseguiram o que queriam, porque Floriano continuou no poder e o que conseguiram foi um monte de gente morta, degolada e fuzilada.

E é agora que entra a surrealidade do nome de Florianópolis.

(Muita) gente fuzilada numa ilha de Santa Catarina

Floriano não era chamado de “Marechal de Ferro” à toa, e as ordens eram de fazer qualquer coisa que tivesse que ser feita para acabar com as revoltas. E o que entenderam que deveria ser feito, era “sair matando um monte de gente, inclusive inocentes” claro.

E isso foi feito. O cenário do fuzilamento de mais de 200 pessoas que mencionei no começo desse texto foi a Ilha de Anhatomirim. Esse chuchu de ilha aqui, que tem um Forte até hoje, na época a prisão dos revoltosos:

massacre de anhatomirim - história do nome de florianópolis
Devem ter acordado e pensado “oh, que lindo dia, que ilha adorável, que belíssima vista para fuzilar e ceifar mais de 200 vidas, uhu”

Floriano, nesse “modus operandi”, conseguiu estancar a Revolta da Armada e a Revolução Federalista com sucesso e um saldo de muitas mortes (inclusive de inocentes que não tinham nada a ver com nada).

E pouco tempo depois, simplesmente mudaram o nome da cidade de Desterro para Florianópolis, que significa “cidade de Floriano”, em homenagem ao ditador que mandou matar uma porrada de gente em Santa Catarina.

Fim.

(Parece até piada/que eu estou de sacanagem, mas é realmente a história do nome de Florianópolis).

Termina aqui essa história de uma cidade maravilhosa com um nome que não faz jus à beleza e invoca mortes horrorosas, e se quiser fica à vontade para mandar nos comentários o que achou, se já sabia, se gostou de ler, qual foi sua curiosidade ou imagem preferida e em qual mesa naquela foto você acha que Dom Pedro II devia sentar durante o café da manhã? Ainda tô curiosa.

[Esse texto obviamente foi um baita resumo de vários acontecimentos históricos relevantes, então se você for um bichinho curioso como eu e quiser saber mais, tem alguns livros – inclusive uns gratuitos ou absurdamente baratos – sobre o tema, como “A memória na Revolução Federalista: diários de guerra e apontamentos de quem viveu o conflito” – é só R$ 9,90 pra comprar ou gratuito para quem assinar o Kindle Unlimited. Se tiver outro para recomendar, pode enviar nos comentários também]

Até o próximo post.

Leia também: Países que já tretaram – p. 1: de onde vem a rivalidade entre o Brasil e a Argentina? 8 momentos de babado, confusão e gritaria

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23 comentários sobre “Uma história bizarra por trás do nome de uma cidade linda: Florianópolis

      1. Grande história de nossa linda gente e.pacifica a merce da ganancia da politicalha toda!!!!Temos ainda a história mais antiga e.intrigante do Brasil!!!!E negligenciada ate.hj!!Nossos antepassados com suas inscrições rupestres ,as intrigantes pedras nas observações solares e espaciais!!!Os sambaquis!!!e.muito.mais.outras evidências milenares!!!Escritas e etc …mas.negligenciada porque????abracao

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    1. Como gaúcho e já tendo lido sobre “nossas” revoluções e ler o teu sempre magnífico texto – eis uma forma maravilhosa de introduzir a história em nosso cotidiano e quem sabe instigar a consciência crítica. Impagável os olhos de D. Pedro II se lascando. Tu és fantástica. Um beijo e grande abraço.

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  1. Ual, não fazia ideia de nada disso! Queria ver a reação do Major Floriano ao saber que seu nome sério foi reduzido a Floripa, bem mais carinhoso; e talvez fofo. Algo me diz que ele não iria gostar he he

    Parabéns pelo texto bem humorado apesar da história trágica! 👏

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  2. Conheço bem essa história desde pequeno, Floriano era padrinho do meu bisavô rsrsrs.
    Não diga que é uma síntese porca, vc resumiu muito bem e super agradável!
    Mas te entendo, as entrelinhas dessa história é sensacional.
    É o início dessa zona toda que vivemos!

    “Não entendo como se estabeleceu no Brasil uma República, tendo os senhores um soberano tão filósofo, idealista e bondoso” Theodore Roosevelt

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    1. Caramba, que incrível devia ser ouvir a história diretamente do seu bisavô com uma proximidade tão grande com ela, e que comentário mais bacana o seu, adorei ler isso! Obrigada e volte sempre por aqui! Roosevelt foi mesmo sagaz na observação.

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      1. Escutava do meu avô, não conheci meu bisavô, sou novinho, tenho 43 anos kkkkk.
        Tirando a parte histórica e falando da vida pessoal, segundo meu bisavô Floriano erá o tiozinho de poucas palavras, atencioso e que gostava de rosas…famoso cão que não late morte rsrsrs. E o mais louco é que meu avô casou (minha avó), com uma neta de um revolucionário.
        Roosevelt erá muito sagaz

        Curtido por 1 pessoa

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