Um relato sofrido de como é o aeroporto Viru Viru em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia

Ontem escrevi aqui sobre o lado ruim da Bolívia. E eu não vou falar só sobre o lado ruim, claro, porque tem muita coisa boa e lugares bonitos pra relatar, especialmente do que descobri em Santa Cruz.

Mas ainda faltou contar sobre outro detalhe levemente problemático de lá: o aeroporto. Ou melhor dizendo, o que vivi no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra, que costuma ser a porta de entrada no país.

Compartilho agora então todas as informações úteis do aeroporto Viru Viru que me fizeram falta, e o perrengue que passei por não saber delas.

Como é o aeroporto Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra (e o que vivi nele)

Minha história com o aeroporto Viru Viru começa mal já na chegada.

Primeiro, tive uma recepção nada “calorosa” na fila da imigração, que relatei aqui em: O lado ruim da Bolívia (ou “dicas pra se lascar menos do que eu na viagem”).

Mas em síntese: pegar o celular quando você chega num destino é quase como mexer a perna quando um médico cutuca seu joelho com um martelinho: inevitável.

Mas na Bolívia, controle seus reflexos, porque um boliviano fardado fatalmente vai te dar uma coça se você encostar no celular na fila da imigração. Falei sobre isso nesse vídeo do aeroporto aqui também (onde inclusive mostro a fila):

E o mesmo boliviano fardado também vai ficar muito brabo com você e te tratar mal se você for indiano, ao que tudo indica (longa história, que contei lá no “lado ruim da Bolívia“).

Mas vamos contar mais sobre o que passei no aeroporto.

Viru Viru. Do latim: “se vira, se vira”

Santa Cruz de la Sierra é a cidade mais desenvolvida da Bolívia, e também a maior em termos populacionais.

E pra que eu tô dizendo isso? Porque num aeroporto desses “deve ter uma casa de câmbio pra trocar reais por bolivianos se eu precisar, numa emergência lá”, pensei eu, sempre mais otimista do que devia.

Ter, tinha.

Tava lá mesmo a casa de câmbio.

Fechada.

O relógio marcava 23h10 quando o avião pousou na Bolívia (cabe registrar, aliás, que o fuso horário lá é diferente. Duas horas mais cedo do que aqui).

Até passar pela fila de imigração (que já falei como é aqui) e raio-x, devia ser bem mais tarde quando finalmente fiquei “livre” pra zanzar no aeroporto e procurar o que interessa.

E nesse horário, mesmo algo tão importante como um lugar onde você pode trocar dinheiro, tava fechado.

Tinham caixas eletrônicos bolivianos, que definitivamente não me ajudavam muito, já que eu só tinha reais pra trocar mesmo (e um cartão de crédito que me cobraria uma fortuna se eu quisesse sacar qualquer coisa).

aeroporto santa cruz de la sierra
foto: Edgar Claure

“Vamos ver se tem como sair daqui do aeroporto sem dinheiro então”.

Não tinha.

O taxista que vimos do lado de fora não aceitava cartão.

Então como primeira dica do aeroporto Viru Viru: não seja bocó como eu, que fui acreditando que as coisas mais importantes estariam abertas num aeroporto internacional principal de um país. Boa parte das coisas fecham cedo por lá mesmo.

E na verdade, como eu só vi coisas fechadas, não sei nem se abrem. Vai que elas tão lá só de enfeite.

Mas voltando ao assunto “tô sem dinheiro e preciso sair do aeroporto”

A corrida pra região central/Primeiro Anel de Santa Cruz teve que ser paga em reais mesmo, após negociar com o taxista.

Cabe uma observação sobre esse “Primeiro Anel”, antes que você pense que virei o Gollum: Santa Cruz de La Sierra é dividida por “anéis”, e o centro da cidade fica no primeiro.

Muita gente (na verdade todo mundo lá) usa essa terminologia de anéis como ponto de referência. Então se você falar que quer ir pro centro, e o cara responder “ah, primer anillo”, fica tranquilo, que ele tá te levando no caminho certo.

Voltando ao tema “táxi no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra”…

Esse táxi que peguei era um oficial do aeroporto.

Toma nota: era branco com detalhes em azul, ficava numa fila de táxis logo no desembarque, e tinha “viru viru” escrito nele.

No caso, eu disse pra tomar nota porque pegar o táxi oficial é mais recomendável em termos de segurança, então não inventa de ir num táxi suspeito, ok?

E o taxista, que foi um dos bolivianos mais simpáticos com quem lidamos por lá (junto com a Gina, Emma e o pessoal do La Rinconada), ficou emocionado quando pegou as notas, dizendo “é a primeira vez que vejo reais!”. Achei bonitinho pra caramba.

Já deixo como outra dica que dá 54 reais (dezembro/2018 – janeiro/2019), no táxi do aeroporto, pra quem estiver indo pra mesma região.

E por sinal, você deveria ir pra mesma região, porque é realmente o melhor lugar pra se hospedar em Santa Cruz de la Sierra (recomendo escolher os mais bem avaliados nessa lista de opções aqui).

Eu me hospedei na Avenida Irala (que amei), na casa de uma anfitriã que merece todo um post à parte, e descobri em Santa Cruz que não poderia ter escolhido melhor.

A Região Central, especialmente perto da Plaza 24 de Septiembre é de verdade o ideal pra qualquer viajante.

“Mas conte mais sobre o aeroporto Viru Viru”

Na volta pro Brasil, claro, também teve complicação no aeroporto Viru Viru. Primeiro: quase tudo fechado, novamente. Dessa vez às 23h30.

E eu tava com fome.

Mais uma vez as coisas fechavam cedo no principal aeroporto internacional do país, e mais uma vez eu me lascava com isso.

O que tem pra comer no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra?

Às 23h30, o único lugar que vi aberto pra comer era um Cinnabon. Eu não queria cinnabon. Na verdade eu nem sabia o que era um cinnabon. Mas “é o que tem pra hoje”.

Gostei do cinnabon.

Agora nossa próxima missão era achar uma loja de souvenir. Minha mãe pediu preu levar um café pra ela. Eu não sei se café boliviano é bom. Desconfio que não, porque vi café brasileiro sendo vendido na Bolívia. Mas ela queria muito, então qualquer coisa eu dava, só pra ela ficar feliz com a embalagem. Vamos catar esse café boliviano.

As lojas de souvenir no Aeroporto Viru Viru

Antes da área de embarque, o cenário era, obviamente, o de todas as lojas de souvenir fechadas.

Vamos passar pra área de embarque então, porque a esperança é a última que morre.

E aí socaram a cara da minha esperança, porque não deu pra embarcar.

Motivo: atendentes que entregaram cartão de embarque com nome errado.

A corrida no aeroporto Viru Viru

Após uma corrida esbaforida e ligeiramente desesperada pelo aeroporto, com cartões de embarque “consertados”, vamos passar logo pelo portão de embarque (bufando) e buscar essa lojinha de souvenir.

Não, não vamos.

Eu disse que a “esperança é a última que morre”. À essa altura a minha já começava a passar mal.

A esperança morrendo no aeroporto de Santa Cruz de la Sierra

Eis que o pessoal do combate ao narcotráfico me barrou.

Quiseram me interrogar e revistar minha bagagem. E só a minha, entre todos numa fila (novamente) enorme e lenta.

Disso concluo:

  1. devo ter cara de traficante ou
  2. dou muita pinta de turista ou
  3. tenho cara de indefesa e achavam que eu tava sendo raptada

Pode opinar nos comentários.

Me senti como os indianos da história que contei aqui.

Mas passado o interrogatório e a revista, vamos embarcar (já falei isso três vezes).

Nisso eu já queria muito voltar pra casa, porque a viagem toda tinha envolvido muito perrengue e tensão.

Se ainda não leu, parte da história tá em: O lado ruim da Bolívia (ou “dicas pra se lascar menos do que eu na viagem”).

E a viagem vinha fechando com chave de ouro com bolivianos trocando nome em cartão de embarque, me interrogando, me obrigando a comer cinnabon, revistando minha bagagem e achando que eu carregava 5 kg de cocaína numa mochilinha furada com desenhos de lhamas.

Mas pera que tem mais

Ainda faltou contar que os mesmos atendentes do aeroporto que trocaram nomes no cartão de embarque, também quiseram despachar na marra minha bagagem de mão pequena e leve, que definitivamente não precisava ser despachada nem se eu estivesse indo pra Galápagos num teco-teco.

Então na verdade temos: bolivianos trocando nome em cartão de embarque, querendo despachar minha bagagem na marra, me interrogando, me obrigando a comer cinnabon, revistando minha bagagem e achando que eu carregava 5 kg de cocaína numa mochilinha furada com desenhos de lhamas.

Mas finalmente, passamos pra área de embarque. Vamos catar essa lojinha de souvenir (acho que já é a quinta vez que escrevo isso).

As lojinhas de souvenir na área de embarque do aeroporto (agora vai)

Eis que encontro a Duty Free, onde eu tinha a incrível oportunidade de pagar 10 dólares por ímas de geladeira que não valiam 5 bolivianos. Entendi o “Duty”, mas  o “Free” tava lá só de sacanagem.

Pelo café, então, eu teria que ficar sem jantar e almoçar por 2 dias pra pagar. Optei por passar correndo por essa Duty “Free”, antes que minha mochila de traficante perigosa esbarrasse em alguma coisa, quebrasse e eu tivesse que lavar pratos bolivianos pra pagar – sendo que não tinha restaurante aberto pra isso.

Saindo da Duty Arrested, encontramos outras lojinhas abertas mais à frente.

Uma que vendia doces e guloseimas, um pouco mais baratinha. Outra que cobrava 40 ou 60 dólares num casaquinho.

Eu só lembro disso, porque foi marcante, e porque saí correndo (de novo) da loja assim que vi esses preços.

Voltei pra lojinha dos doces. Ela fica alguns passos à frente da Duty Free e de – pasme – outro Cinnabon. “Só tem cinnabon pra comer nessa p*rra”, eu pensei já meio sem boa vontade com aquele aeroporto.

Comprei o café. A quem interessar: por mais ou menos 50 bolivianos (café mais caro da minha vida) e à essa altura sem entender como que Evo Morales pode afirmar que é contra o capitalismo.

Recapitulando, temos então, em um único aeroporto: sofrimento com quase nada aberto após 23h, dificuldade em trocar dinheiro, bolivianos fardados me dando bronca em fila de imigração (disso eu falei no relato do “lado ruim”), trocando meu nome em cartão de embarque, querendo despachar minha bagagem na marra, me obrigando a comer cinnabon, revistando minha bagagem, me interrogando e achando que eu carregava 5 kg de cocaína numa mochilinha furada com desenhos de lhamas e eu sendo extorquida por um café boliviano – que nem deve ser bom.

Outros dilemas do aeroporto Viru Viru em Santa Cruz de la Sierra:

Torça pra não cair no portão de embarque 8, nos vôos internacionais.

Quer dizer, talvez todos os portões sejam igualmente ruins, mas como caí nesse portão, é do que posso falar.

O portão fica em frente a uma escada. Não é escada rolante. A única coisa que pode rolar é você, se tropeçar nos degraus enquanto carrega sua bagagem de mão.

Dali você também tem que caminhar bastante na pista pro avião, e depois, claro, subir novamente escadas, pra entrar nele.

Durante o trajeto eu só ficava me perguntando como uma pessoa com mobilidade reduzida poderia viajar nessas circunstâncias – e concluindo que a Bolívia não era um bom lugar pra levar minha mãe nem minha vó.

E enquanto eu descia escadas, andava 170 km até o avião, subia mais escadas, foi batendo um suave arrependimento de não ter despachado a bagagem.

Quase acreditei: “Será que os caras que queriam despachar minha bagagem de mão na marra só queriam me ajudar, porque sabiam que eu ia subir escada/descer escada/caminhar a meia maratona São Silvestre pra chegar no avião?”

Então já deixo aqui o alerta pra se preparar psicologicamente: talvez você precise subir/descer escadas (não-rolantes) e andar na pista no Aeroporto de Santa Cruz de la Sierra.

Em condições normais, isso não me incomodaria tanto. Mas eu não estava em condições normais depois de uma viagem tensa na Bolívia – e acho que ninguém fica em condições normais na volta daquele país. Todo mundo volta da Bolívia meio estrupicado, meio confuso, num mix de “oh, quantas coisas lindas eu vi” e “que foi que eu fiz da minha vida, por que não fui passar essas férias em Aruba?”.

Pra agravar, já passava de 3 da manhã, o vôo tava atrasado, eu tava com tanto sono que nem enxergava os degraus direito, meu corpo doía, meu olho fechava, o cinnabon começava a me cair não muito bem e eu nunca senti tanta saudade do Brasil.

Descobrir que o aeroporto não tinha escada rolante naquele portão 8 foi a cereja do bolo nessa hora.

Por sorte, minha companhia de viagem, que me salvou em diversos momentos, também me salvou nesse. Eu já disse naquele relato do lado ruim da Bolívia como faz falta e toda diferença viajar em boa companhia por lá. Nessa hora (e em muitas outras) reforcei o pensamento e me senti novamente grata pela companhia tão boa e parceira que tive.

As taxas no aeroporto Viru Viru de Santa Cruz de la Sierra:

Se você tá achando que tá ruim, pros bolivianos tá pior.

Descobri que todos eles tem que pagar mais de 300 bolivianos de taxa só pra sair do país.

Sei lá que taxa é essa. Deveriam chamar de “Taxa prisão domiciliar”, porque eu não sairia do país se sempre me cobrassem um negócio desse.

Como (graças a Deus) não éramos bolivianos – até porque nem tínhamos dinheiro suficiente pra ser – podemos nos livrar dessa taxa descarada depois de preencher um papelzinho lá no check-in.

Mas a-há!

Não nos livramos de todas.

Se você precisar despachar bagagem e for pagar na hora, eles vão meter a faca, cobrando, além do valor caro normal, mais umas taxinhas evomoralescas lá. Ou pelo menos foi assim na Gol.

À essa altura, a lista de coisas meio complicadas do aeroporto já tinha virado aquela música da “velha a fiar”, que só vai aumentando: taxas extras em despacho de bagagem, caminhadas de 17 km (gosto de hipérbole) até o avião, escadas não-rolantes após portão de embarque, sofrimento com nada aberto após 23h, dificuldade em trocar dinheiro, bolivianos fardados me dando bronca em fila de imigração, trocando meu nome em cartão de embarque, querendo despachar minha bagagem na marra, me obrigando a comer cinnabon, revistando minha bagagem, me interrogando, me extorquindo por um café, e achando que eu carregava 5 kg de cocaína numa mochilinha furada com desenhos de lhamas.

Conclusão (e o compilado de dicas) sobre o que vivi no Aeroporto de Santa Cruz de la Sierra

1. Se você chegar tarde, não conte com casas de câmbio abertas. Mas numa emergência, você pode negociar o valor em reais (mais especificamente 54 reais pra região central) com os táxis oficiais do aeroporto.

2. E por sinal, pegue mesmo os táxis oficiais, que são brancos e azuis.

3. No retorno, chegue cedo, com bastante antecedência mesmo, porque problemas podem acontecer (no meu caso, quase todos aconteceram) e o processo de imigração pode ser bem demorado.

4. Quando você chega no aeroporto, tem uma escada rolante/elevador à vista. Mas em alguns portões de embarque pra pegar seu vôo, esteja preparado pra descer escadas, subir escadas, caminhar até o avião.

5. Checa se seu nome tá correto no cartão de embarque.

6. Não leve pro pessoal se quiserem te revistar.

7. De madrugada, lembro que vi abertas: uma Duty Free, uma Cinnabon, uma lojinha de doces e guloseimas, outra Cinnabon, uma lojinha de souvenir que cobrava 40 dólares num casaco e coisinhas assim. Não lembro do que mais e se você lembrar, manda nos comentários!

Espero que o post te ajude se virar no Viru Viru (não podia perder a piada) e aproveitar melhor que eu o aeroporto de Santa Cruz de la Sierra, e leia agora, finalmente:

O que fazer, e tudo que me encantou em Santa Cruz de la Sierra, que me rendeu a surpresa positiva e o lado bom da Bolívia!

Até o próximo relato!

 

10 comentários sobre “Um relato sofrido de como é o aeroporto Viru Viru em Santa Cruz de La Sierra, Bolívia

    1. Oi, Bruno! Devem estar sim, acho que o problema foi que cheguei depois das 23h no aeroporto, tanto na ida quanto na volta! Mas na pior das hipóteses você pode negociar a saída do aeroporto em reais, deu 54 reais pra região central com o táxi oficial do Viru Viru. Obrigada pela leitura e comentário, e tô fazendo um vídeo do aeroporto de Santa Cruz aqui que vou incorporar no post daqui a uns dias e postar no canal do youtube pra mostrar melhor como é lá!

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    1. Oi, Allan! Na volta foi mais de 3 horas, mas talvez tenha sido bem sui generis porque como disse fui revistada e interrogada e passei muito perrengue. Na chegada não foi tudo isso não, por exemplo, então você pode ter bem mais sorte! De toda forma recomendo chegar com antecedência. Obrigada pela leitura e comentário, volte sempre por aqui! Boa viagem e tem mais dicas de Santa Cruz aqui: https://1viagem2visoes.com/2019/02/03/onde-se-hospedar-em-santa-cruz-de-la-sierra-os-melhores-bairros-pra-ficar-vai-por-mim/ e aqui: https://1viagem2visoes.com/category/bolivia/

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