Como cada país lida com a morte, qual lida “melhor” e o que aprender com ele?

Se tem uma coisa que permanece democrática até em regimes como o da Coreia do Norte, essa tal coisa é a morte. Taí algo que vem pra todo mundo – ainda que pra alguns venha por execução ou tortura no campo de prisioneiros, e pra outros venha de causas naturais (como comer muita batata frita na juventude).

Ainda assim, quando a morte chega, sempre causa a sensação de incredulidade, vazio, desamparo absoluto e até de injustiça. E a gente não sabe exatamente o que seria uma morte “justa”, mas fato é que toda vez que uma pessoa que amamos morre, isso dói como se alguém tivesse nos desferido um golpe pelas costas absolutamente injusto.

A ironia é que nunca é pelas costas: a gente sempre sabe que esse “golpe” da morte vem. E também não é injusto: se absolutamente todo mundo morre, por que seria justo que alguém que amamos fugisse à regra?

“PARTIU matar o Augusto Jefferson ali – ah não, a Marilúcia adora ele, deixa”

Também não faz sentido a incredulidade na morte, já que ninguém acredita no contrário (que alguém viva pra sempre).

Alguma sensação de injustiça pode vir pela forma que se morre. As frases que corroboram pra essa sensação geralmente são: “estava tão bem”, “tinha tanta saúde”, “tinha tantos planos”, “ajudava tantas pessoas”. De todo modo, a pessoa ainda morreria em algum momento, possuindo ou não essas características todas – que tornam alguém admirável, mas infelizmente não tornam alguém imortal.

Mas afinal, como países de diferentes culturas lidam com a morte? Qual país lida melhor? Como nós brasileiros lidamos com a morte? E o que a gente pode aprender com países de culturas tão diferentes, especialmente nesses momentos “injustos” e “inacreditáveis”?

As formas diferentes de lidar com a morte em cada país

Primeiro vamos descobrir o país “medalha de ouro em morte” (???”), depois como o nosso país realmente lida com a morte e depois partimos pra outros países que lidam de formas bem diferentes.

1. Como lidam com a morte no Butão?

O Butão leva a medalha (prêmio meio estranho, mas ainda assim um prêmio) de país que lida melhor com a morte. Um país pequenininho, aparentemente inexpressivo, mas que tem ensinamentos significativos pra transmitir a outros países com o triplo do tamanho e muito mais desenvolvidos

Pra explicar melhor, o Butão é considerado o país mais feliz do mundo. E o Eric Weiner contou que, em uma viagem ao Butão, um butanês revelou que o segredo da felicidade deles era “pensar na morte pelo menos 5 vezes ao dia”. Você precisa lembrar que vai morrer, sabe? Talvez justamente pra valorizar mais sua vida.

Em síntese, não é como se o Butão lidasse “bem” com a morte. A verdade é que ele lida com a morte. O país faz muitos rituais (muitos mesmo) que deixam sempre bem explícito que a morte está ali, vem pra todos, e que por conta disso cada segundo de vida na Terra é uma benção a ser valorizada.

“UHU”

Especificando como são alguns rituais: tanto no Butão, como em outros locais onde o budismo está entre a maioria da população, sete dias depois de um ente querido morrer, a família e amigos dele se reúnem numa celebração. Você pode pensar “ah, é parecido com a missa de sétimo dia aqui no Brasil”, mas não, porque lá essa reunião vai se repetir várias vezes.

São sete reuniões no total, pra relembrar quem se foi. Ou seja, a pessoa nem “descansa” a memória e nem dá trela pra saudade. Fica constantemente se lembrando de quem morreu.

Fato é que quando a gente se dedica à muitas áreas da vida, deixa de lado algumas outras áreas. Quase sempre a área deixada de lado é a espiritual. No Butão o que acontece é o extremo oposto: a vida espiritual é considerada a principal, então provavelmente você não chega no fim da vida preocupado por não ter “paz espiritual”.

O que é curioso, se você analisa a visão dos brasileiros sobre a morte, que é a que vamos analisar a seguir.

2. E no Brasil, como a morte é encarada pelos brasileiros?

A primeira coisa que se pode perceber em pesquisas feitas com brasileiros sobre o tema é: nosso país não lida bem com a morte.

“E quem lida?”

Também não sei, mas países como Butão, Mongólia e Japão tendem a encarar de maneira mais natural (até porque a morte é natural) e menos dolorosa.

quantos barris você chorou nessa cena? eu chorei 8 e meio

O mais importante para brasileiros é morrer “em paz” (aquilo que falamos no tópico acima que acontece naturalmente no Butão).

Em uma pesquisa realizada pela The Economist e Kaiser Family, 88% dos entrevistados (e isso é bastante coisa) responderam que essa tal “paz de espírito” no fim da vida é extremamente importante. E a paz de espírito provavelmente é considerada importante porque todos temem a morte e o que vem depois dela.

No mesmo questionário, brasileiros foram os únicos a responder que preferiam alongar suas vidas, mesmo que isso implicasse muito sofrimento.

Ou seja: entre todas as nações, só brasileiros priorizam viver, ao invés de encurtar sofrimento. Ou seja parte 2: brasileiros provavelmente são um dos mais assustados com a ideia de morrer.

Talvez isso também se deva ao fato de que o Brasil foi o país mais católico da pesquisa: de acordo com as entrevistas, tem mais católicos no Brasil do que em qualquer outro país. 83% dos entrevistados responderam que a religião tem um papel fundamental em suas vidas.

Mas vamos refletir: se a religião foi declarada importante pela maioria dos brasileiros, por que esses mesmos brasileiros tem tanto medo de alcançar efetivamente a vida espiritual?

Vai ver é justamente pelo fato de que muitos apenas se declaram de determinada religião, mas não a praticam (que é o oposto do Butão: ninguém fica só falando ser de determinada religião, as pessoas simplesmente vão lá e agem / vivem de acordo com aquela crença).

Ou seja parte 4: não adianta dizer que você tem a religião X, se você destrata pessoas, xinga pelas costas, trapaceia, sacaneia todo mundo e chuta cachorrinho na rua.

Senão na hora da morte cê vai estar “ah meu Deus, paz de espírito, cadê, preciso dela”.

Japão

A principal preocupação dos japoneses (e dos americanos) sobre a morte não é se eles vão morrer “em paz”, e sim se a família vai conseguir arcar com os custos (emocionais e financeiros) de sua morte. Bonito, né? Se preocupando mais com os familiares do que com eles mesmos.

Parando pra pensar, morrer é uma excelente forma de sacanear alguém que te ama: você morre, deixa todo mundo triste, e sua “conta” (de tristeza e de funeral) fica pros outros. Logo: não morra (não dá pra evitar, então ao menos não morra “de propósito”). E se possível pare também com aquela palhaçadinha de falar “queria estar morta”.

Essa preocupação de japoneses e americanos é muito bonita porque demonstra pouco egoísmo, se parar pra pensar (isso faria de nós, brasileiros apavorados com a morte, seres egoístas? fica pra reflexão).

Eles não se preocupam tanto se estarão bem no fim da vida, mas se outros ficarão bem e segurarão as pontas depois que eles se forem.

Preocupação justificada também, porque um funeral no Japão pode chegar facilmente a 24.000 dólares, já tendo chegado até a 80.000 (fonte). Morrer no Japão é caro pra caramba.

Aliás, na “lista de cidades onde é mais caro morrer” (é, fizeram uma lista dessa), Tóquio fica em primeiro lugar (seguida da Cidade do México).

A morte representada no filme Princesa Mononoke

Ao contrário do Brasil, a religião não tem um papel muito decisivo na vida dos japoneses, e a maioria no Japão não se define “formalmente” com uma, mas independentemente de religião, a “paz espiritual” também é importante pra eles.

“Morrer com paz de espírito” fica em segundo lugar no ranking de preocupações do Japão.

Lá no Japão tem também uma celebração que homenageia entes queridos que já partiram, que rola no dia 15 de julho ou 15 de agosto (minha mãe faz aniversário no dia 15 de julho e não vai gostar nada de saber disso… beijo, mãe, te amo!).

E aproveitando a deixa pra compartilhar uma curiosidade “fúnebre”, é comum roubarem cinzas (???) em terras nipônicas. Por lá já foram roubadas as cinzas de Yukio Mishima, Naoya Shiga e Machiko Hasegawa.

E só uma curiosidade sobre a Itália:

Qual a maior preocupação dos italianos referente à morte?

De acordo com a pesquisa é ter entes queridos próximos no momento em que se forem. Também é bonito, né? (E nós aqui com preocupações como “não morrer nunca”).

vou chorar de novo vendo esse gif

Enfim: como lidar com a morte?

A verdade é que a gente tenta se preparar pra quando alguém querido se for, mas nunca tá preparado. Mesmo que seja uma vó de 298 anos terrivelmente mal de saúde.

Mas um fato consolador da morte é: ela é melhor pra quem vai (em paz e sem suicídio, claro) do que pra quem fica. Quem vai se desprende do mundo, e deixa aqueles na Terra ainda presos às memórias e uma saudade dolorosa.

Então é só pensar: ah, a pessoa que eu amo se foi, mas ela tá bem. Lascada(o) tô eu.

E aí melhora um pouquinho (mas melhora tão pouco que cê mal sente melhora).

E você? Qual sua visão sobre a morte e com qual país se identificou mais?

Até o próximo post (menos fúnebre) e fica à vontade nos comentários!


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5 comentários sobre “Como cada país lida com a morte, qual lida “melhor” e o que aprender com ele?

    1. Muito obrigada pela leitura e comentário, Aline! Acho que nesse quesito aí me identifico mais com o Japão também. Mas fato é que enquanto com a minha morte não me preocupo tanto, com a morte dos entes queridos eu dou uma pirada absoluta só de pensar (e mais ainda de acontecer); Beijo!

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  1. Vale uma observação sobre a relação com a morte que os mexicanos têm. É, numa linha tipo o espiritismo, nada mais que a passagem para outra vida (o que, no caso, pode ser entendido como burlar a própria morte, não?). O filme “Viva”, do início deste ano ilustra bem essa relação no melhor estilo pixar.

    Curtido por 1 pessoa

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