Dorival Caymmi realmente sentia saudade da Bahia?

Às vezes acho que Caymmi mentiu quando cantou “mas que saudade eu tenho da Bahia”. Ou talvez tenha só se equivocado.

Da Bahia eu não sinto tanta saudade, e espero que ela não se ofenda.

A saudade maior que bate não é bem de lá, e sim dos baianos e de toda a “baianidade” que você descobre que de fato existe.

O baiano é um universo à parte. Universo bem “massa”, aliás. Gente que não bebe, e sim “come água”. Gente que fala “e aí, véi” pra jovem, “e aí, negão” pra “galego”, “e aí, misera” pra rico, “e aí, viado” pra gente de toda orientação sexual possível.

Baiano é um povo “barril”, que apesar de toda aquela doçura quando te chama de “meu rei”, fica (com razão) “retado” com a fama injusta de preguiçoso que tem.

Eu era um bebê quando fui pra Salvador a primeira vez, e vivi fases intercaladas da vida por lá.

a magia de salvador e do jeito do baiano
foto: pixabay, porque minhas fotos são todas antigas

Nos álbuns e nos vídeos que sobraram, dá pra concluir que a Bahia faz bem pra infância: era um criança que tava sempre sorrindo, chamando mamãe de “mainha”, papai de “painho”, dançando qualquer coisa que tocasse, e sempre expondo uma barriguinha saliente num biquíni de babadinho, me sentindo a própria Adriana Lima (que por sinal é soteropolitana).

Exibia também a bochecha e nariz continuamente vermelhos, acariciados pelo sol – na Bahia você sente tudo com mais suavidade, como se a vida te fizesse um carinho – hoje o sol não me faz mais carinho, ele soca minha cara.

Depois voltei pra Bahia adolescente. Fase que costuma ser de “rebeldia”, mas lá não me rebelei. A Bahia, novamente, me suavizou, como uma rabanada sutilmente afogada no leite (inclusive tive minha fase rebelde – leia “rockeirona que se vestia feito um filhote de urubu” – só voltando pro Rio).

Lá eu pegava mais sol do que devia (minhas constelações de pintas denunciam), dançava os sucessos do Xanddy, cantava “Morango do Nordeste” e “Diga que valeu”. Isso tocava o tempo todo, então mesmo que não gostasse, você se rendia em algum momento (cabe um desabafo que até hoje toca “diga que valeu” em loop na minha cabeça).

Lembro que notei, quando voltei pro Rio, que o modo de viver dos baianos e cariocas é meio diferente, embora tenham em comum um certo relaxamento e informalidade em quase tudo que fazem.

Mas o carioca é um relaxado preocupado, enquanto o baiano é o true relaxado, relaxado e alegre. O carioca fala, age, anda, se veste como alguém que não tá nem aí pra nada (vide havaianas que não saem do pé). Mas ele “tá aí” sim. Tá sempre aí. Não dá pra relaxar muito no Rio de Janeiro. É bem aquela coisa do “purgatório da beleza e do caos”, e embora a beleza da cidade convide ao relaxamento, o caos repele a ideia.

O baiano consegue ser descontraído de verdade, apesar de todos os problemas que a Bahia enfrenta.

E olha que é bastante problema, e já há bastante tempo…

O jeito de falar do baiano

Quando voltei pro Rio, já “grandinha”, zoaram bastante meu sotaque por aqui. Não era mais carioca. Na escola o pronome de tratamento virou “baianinha”. Mas também não era sotaque baiano, porque em Salvador me chamavam de “carioca”. Vivi uma espécie de apatridia de sotaque. Nenhum lugar reconheceria meu jeito de falar, até hoje.

Mas sobre o jeito de falar, era (e ainda é) especialmente delicioso ouvir aquele sotaque baiano que parece que faz massagem nos seus ouvidos, enquanto entoa melodicamente um “ô meu rei” tão carinhoso. Esse “meu rei” é usado mais raramente do que os estereótipos fazem parecer, mas quando usado, é de amolecer qualquer um, feito aquela rabanada afogada no leite.

salvador bahia pelourinho o jeito do baiano, a forma de falar e a baianidade.jpg
foto: pixabay

E o “ôxe” é insubstituível. “Aooonde” é o que alguma expressão supre o uso do “ôxe”? Interjeição brilhante, que nunca consegui eliminar da vida, porque nenhuma faz melhor esse papel de… tudo.  “Ó paí ó”, esse povo que inventa palavras que sempre precisamos mas nunca soubemos. Que usa expressões “balas” como “queixa” e “leseira”. Que abrevia o “viu” pra “vu”, como se “viu” não fosse uma palavra curta o suficiente. Mas o baiano não pode perder muito tempo em falar um “viu” inteiro, porque ele precisa usar o tempo pra viver.

O jeito de viver do baiano

Isso porque o baiano realmente vive em plenitude. Por mais clichê que essa expressão seja, ela cai muito bem no caso dele. Só não vale confundir, porque baiano não vive em carnaval, nem em festa. Aliás, quem mais vive no carnaval é todo mundo menos baiano, já que o carnaval de lá é cheio de turista.

O baiano trabalha pra caramba. Em todo lugar do Brasil, aliás, especialmente São Paulo. Chega a ser injusto que alguém que com frequência até sai da própria terra pra trabalhar leve fama de preguiçoso. Mas ainda assim, mesmo trabalhando, estudando ou qualquercoisando, vive de verdade em ritmo de axé – até o baiano mais metaleiro desse mundo. Tem nele essa aura de descontração e leveza, que suaviza sua vida também quando você experimenta a Bahia.

É como se todo pulso fosse propício a uma fita colorida e cheia de esperança do Bonfim, toda esquina fosse propícia a um acarajé, vatapá e caruru gostoso (meu Deus, que saudade de caruru), toda esbarrada de olhar fosse propícia a um sorriso afável, todo dia fosse um convite a se viver da forma mais leve possível. Talvez daí tenha vindo o “sorria, você está na Bahia”, e não da rima.

jeito

Dá pra finalizar aqui só com músicas de Caymmi. Que nasceu em Salvador, morreu no Rio, e se eternizou em uma estátua na praia, em um dos postos mais gostosos pra se ir no “Sábado em Copacabana”.

Foi feliz até em morte, porque “É doce morrer no mar”, e hoje tem uma vista permanente pra ele (se bem que a estátua tá de costas…).

E nos ensinou que “a Bahia tem um jeito que nenhuma terra tem”.

Provavelmente daí saiu essa “Saudade de Itapoã”, essa “Saudade da Bahia”. Não é sobre um lugar – pra ser sincera eu sequer gostava tanto do Pelourinho ou do Elevador Lacerda naquela época.

É sobre esse jeito.


Leia também: Como escolher bem um hotel (ou apartamento) em basicamente qualquer canto do mundo?

4 comentários sobre “Dorival Caymmi realmente sentia saudade da Bahia?

  1. A Bahia é, para mim, um país à parte e gosto de pensar assim. passei momentos curiosos das vezes em que estive em salvador e outras pequenas cidades. Por ser muito claro, à época ainda mais na barba e cabelos, falavam uma espécie de inglês misturado com sei lá baianês?, não sei. mas, pensavam que eu era europeu. assisti e participei de uma Festa religiosa, Lavagem do Bonfim e foi algo extraordinário em emoção, sentimento e religiosidade. (Acho que Caymmi sentia saudade sim da Bahia.) o meu abraço.

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    1. A Bahia é realmente um universo inteiro à parte! Vivi também essa coisa de falarem em italiano/inglês/baianês comigo, por ser muito branca!!! Hahahaha é um povo divertido e um clima gostoso mesmo. Vai ver Caymmi sentia saudade dos baianos e da Bahia também… Muito obrigada pelo comentário e um abraço!

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