A triste história da Carioca que amava São Paulo – mas não era recíproco

Era uma vez uma carioca que, contrariando o rumo natural do universo, sempre foi apaixonada por São Paulo. Foi amor à primeira vista, antes mesmo de ter pisado na cidade, intensificado assim que o avião se aproximou daquele mar de luzes que se moviam tão rápido, e prédios que pareciam que iam bater no avião, de tão altos.

Também foi “amor à primeira ouvida”, porque não satisfeita em amar São Paulo, ela também amava o sotaque dos paulistas, sentia o maior prazer do mundo em ouvir “porrrta” e achava aquela mania que paulistas tem de falar “mano” e “da hora” um charme, ainda que ela não entendesse muito bem – até hoje – o sentido em algo ser “da hora”.

eu amo são paulo
fonte: pixabay

O momento em que o condutor do metrô dizia “próxima essstação, Libeirrdade”, era de puro êxtase. Não só porque o sotaque era uma gracinha, mas porque ela amava o bairro da Liberdade.

Ela só não aceitava muito bem a mania do “bolacha”, porque tá escrito “biscoito” em todas as embalagens, então isso não deveria nem gerar tanta discussão.

E obviamente, essa carioca sou eu (e se você for paulista, envie áudios).

E por que não é recíproco?

A primeira coisa que prova que o que sinto não é recíproco se chama “comentários no G1”.

Toda vez que você entra em alguma notícia de desgraça sobre o Rio, tem algum paulista lá, marcando presença. Não pra demonstrar preocupação com os cariocas, mas pra comentar “bem feito”.

E nas notícias de algo bom no Rio (e tem bastante coisa boa aqui também, o Rio é horrorosamente lindo, vai), tá lá o paulista também. Dessa vez dizendo “São Paulo é melhor”.

Museu novo no Rio? “O de São Paulo tem um acervo maior”. E sabe aquela exposição maneira? Então, “a que rolou antes em São Paulo foi melhor ainda”. E o que dizer dos shows, que são sempre mais bacanas em São Paulo, ou, pior ainda, que só rolam lá? (P*rra, Slowdive!)

Aparentemente, muitas pessoas ainda acreditam que São Paulo e Rio não podem ser simplesmente diferentes ou até complementares. Precisam ser “rivais”.

A bolacha

Uma vez, numa lojinha da Liberdade, eu quis comprar um biscoito de koala. Porque, como menciono no tópico mais abaixo, São Paulo (e a Liberdade) tem tudo de tudo, inclusive biscoitinhos gostosos em formatos inusitados. Dá pra comprar esse biscoito no Rio também, mas é um cadim mais difícil de achar, e na época era mais ainda.

Sabe aquele biscoitinho japonês, com um koala bonitinho pra caramba? Se não sabe, é esse aqui:

biscoito de koala são paulo.png
Pausa pro ataque de petit, pode ir ali gritar “MODEUSO” e volta

A atendente na lojinha vinha me tratando muito bem, cordial e eficiente como é da natureza dos paulistas, e depois que fucei mais umas coisinhas pela loja, ela perguntou no que mais poderia me ajudar, e o que eu queria.

Foi então que cometi um dos meus maiores erros em São Paulo: eu respondi o que eu queria.

E eu queria um biscoito.

De koala.

No momento em que eu disse “biscoito”, e pra piorar, com o “bixx” inevitavelmente puxado, senti a expressão da moça mudar, como se eu tivesse dito “sua mãe não vale nada”.

Junto com a expressão, mudou o tratamento.

E por que amar/conhecer São Paulo?

Amor é algo que não precisa de explicação e até reza a lenda (ou “dizia Shakespeare”) que quando passamos a tentar explicar, já não é mais amor. De toda forma, existem tantos motivos pra no mínimo admirar bastante São Paulo, que vale a pena mencionar alguns aqui.

São Paulo é como o “melhor aluno da classe” do Brasil.  Aquele aluno dedicado que nunca chega atrasado e entrega os deveres de casa feitos da melhor forma possível. Talvez seja até aquele aluno que lembra ao professor de passar o dever de casa (e mata todos os alunos de raiva). E vai ver é justamente isso que desperta essa rixazinha em outros “alunos”, de outras cidades do Brasil.

rixa entre cariocas e paulistas.png
“Um clássico, com Robin Williams”

São Paulo é onde se concentra o dinheiro do país, e todas as consequências disso. E um lugar que prova que o Brasil tem potencial de organização.

É fascinante pensar como que tem 13 milhões de brasileiros concentrados num lugar só, sem uma praiazinha pra distrair (faz falta, vai) e esse lugar deu certo.

Claro que o conceito de “deu certo” vai da percepção de cada um, a cidade tem diversos problemas, o pessoal já sofreu até sem poder tomar banho direito (e tá de parabéns mais uma vez, por ter sobrevivido a isso), mas proporcionalmente, estamos falando de uma cidade absolutamente fascinante em termos de desenvolvimento, organização, e principalmente opção pra tudo na vida… Aliás, vamos pra esse tópico.

A cidade cheia de opções

Mais um motivo pra amar São Paulo é que se você precisa encontrar algo no Brasil, e não encontrar por lá, já pode desistir e ir procurar na China.

Desde restaurantes vegetarianos com decoração de açougue, passando por jardins japoneses com flores de cerejeira de babar, galerias que vendem mil coisas da cultura pop e que fazem nerds e todas as outras “tribos” existentes suspirarem, todos os eventos, restaurantes, exposições e shows que você conseguir imaginar, festas em todos os horários, com todas as temáticas possíveis.

São Paulo é o paraíso dos entediados.

Por ter tanta coisa pra fazer, tanto pra se ver, tanto pra se produzir, tanto pra se viver em todas as horas do dia, é comum notar uma certa pressa nos moradores. Uns eventuais empurrões no metrô, os passos rápidos na rua, algumas esbarradas de ombro…

Alguns, não acostumados, podem pensar que é antipatia. Outros agradecem: o paulista tem a consciência, por exemplo, de que é pra ficar parado do lado direito da escada rolante, e deixar as pessoas com pressa passarem do lado esquerdo.

Conclusão

Por mim, eu pegava o Rio e São Paulo e fazia assim:

Como não dá, vida que segue, e com rixa ou não ambos continuam sendo encantadores à sua maneira.

Vou ser eternamente grata por todos os momentos sensacionais vividos lá (e foram muitos), todas as pessoas que conheci, todos os sotaquinhos que ouvi, todos os biscoitos de koala (ainda que a atendente provavelmente tenha cuspido neles escondida), e inclusive por ter sido até o lugar que estreou minhas viagens sozinha.

Vale a pena demais ir pra São Paulo. Só cuidado ao falar “bixcoito”.

Leia também: O guia de sobrevivência do Rio de Janeiro (ou “como identificar um carioca na rua”)


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Até o próximo post!

 

12 comentários sobre “A triste história da Carioca que amava São Paulo – mas não era recíproco

    1. Aaah, muito bom ler o outro lado e saber que a recíproca é verdadeira! A rixa realmente não faz sentido, o melhor é aproveitar o que as duas cidades tem pra oferecer. E a questão da violência não dá pra negar mesmo… :/ Muito obrigada pelo comentário! Abraços!

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  1. Maria, menina que texto mais lindo e perfeito! Concordo em tudo, e confesso que apesar de ser Carioca da gema, amar meu Rio mais que tudo, tenho um carinho por Sampa também.
    Falando sobre a cidade perfeita, onde encontramos comidinhas maravilhosas, que tal combinarmos uma pequena viagem para lá? Topas??????

    Curtido por 1 pessoa

    1. Muuito obrigada pelo comentário! Feliz mesmo de saber que você gostou! E o biscoito é uma delicinha, experimenta mesmo! Tem nas lojinhas da Liberdade por lá, e no Rio você consegue achar (com sorte) em lojinhas orientais! Um beijo!

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  2. Já disse que amo teus textos? Ah digo de novo então!!! “Desde restaurantes vegetarianos com decoração de açougue” ahahahahah o melhor início de frase ever!!! Eu também amo São Paulo, ou Sampa, ou terra da garoa. Mas como boa gaúcha, não me importa se o amor é recíproco. Sou tipo: problema dele se não me ama, não sabe o que está perdendo!!! Mas independente de qualquer coisa eu continuo indo pra lá e incentivando as pessoas a irem também. E vamos combinar de irmos juntas? O que acha? Beijinhos

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  3. Maria, que texto sensacional! Também sinto o mesmo por São Paulo! Amo aquela cidade desde a primeira vez que fui há uns anos, foi amor a primeira vista. Parecia que eu estava lendo a minha história com a capital paulista! ahahaha
    Só não tive problemas com o “bixcoito” de Koala ahaha
    Continue escrevendo e alegrando a gente com seus textos sensacionais!

    Curtido por 1 pessoa

  4. Os historiadores apontam a revolução de 32 como a causa desse rixa entre paulistas e cariocas. Esse ódio foi passado inconscientemente de bisavô, avô, pai. Todo paulista ou paulistano da nata foi criado dessa forma. Todos os paulistanos se alistaram, só mesmo, doentes e deficientes deixaram de participar nas trincheiras.

    É bom deixar claro que São Paulo lutou e permaneceu até o final sozinho contra o Rio de Janeiro e o resto dos estados. São Paulo acabou se tornando auto suficiente durante a revolução, porque tinha que fabricar desde as armas até a farinha para fazer o pão.
    Contudo, São Paulo perdeu a revolução 32, também chamada de Constitucionalista. Apesar da derrota militar do movimento, algumas de suas principais reivindicações foram obtidas posteriormente, por exemplo, com a nomeação de um interventor civil e paulista, a convocação de uma Assembleia Constituinte e a promulgação de uma nova Constituição em 1934.
    O dia 9 de julho, que marca o início da Revolução de 1932, é a data cívica mais importante do Estado de São Paulo e feriado Estadual. Os paulistas consideram a Revolução Constitucionalista como sendo o maior movimento cívico de sua história

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