Agripino, o passarinho que viajou e não gostou da experiência

Agripino foi um passarinho que decidiu entrar pela janela lá de casa um dia. Chegou com uma pata machucada, o bico rachado, uma fome danada, e ainda assim cheio de marra.

Apesar da saudade, não vou romantizar nossa convivência: Agripino era um bicho difícil.

Acordava todo o prédio impreterivelmente às 5 da manhã, dando urros (não posso chamar aquilo de piado, nem “canto”), atacava a Mel (…totalmente imperdoável) e praticamente tentava matar qualquer outro passarinho com que interagisse – talvez eu tenha sido gentil na escolha de palavras, quando descrevi ele como “difícil”, e não como “mensageiro do Apocalipse”.

Na época eu devo ter jogado no google algo parecido com “qual o problema desse passarinho?”, e acabei descobrindo que essas são algumas características de agapornis mesmo, que curiosamente chamam de “pássaro do amor”, mas que poderia perfeitamente ser chamado de “pássaro do caos e destruição”.

(Mas nesse vídeo aí em cima, em que ele reage à primeira vez que cantei pra ele dormir, Agripino realmente tá a coisa mais adorável do mundo, e dá uma saudaaade…)

Minha mãe, depois de um tempo, já tava quase com vontade de jogar o Agripino pela janela (o que não adiantaria nada, já que foi exatamente pela janela que ele entrou em casa), mas foi paciente, e mais algum tempo depois, ele acabou arranjando um destino bem mais feliz: foi adotado por um ser humano sensacional, que ama pássaros (agapornis em especial!), e recebeu uma nova vida e um novo nome.

Pra mim também foi bom, porque nunca me apeteceu a ideia de ter pássaros: ver animais em gaiola me dá agonia, e dá vontade de soltar tudo – e ao mesmo tempo, eu sei que se eu soltasse tudo, fatalmente eles iriam morrer uma morte cruel e horrorosa lá fora, ou matar outros animais, ou afetar horrorosamente todo um ecossistema, ou todas as opções anteriores.

E Agripino recebeu também um novo sexo: a nova “mãe” decidiu que ele ia passar a ser mulher e se chamar Kiki – nunca soube se ele tava ok com isso, mas ele pareceu mais feliz sendo crossdresser mesmo.

Daí hoje eu me peguei lembrando dele (ou dela), com aqueles “óculos de graduação”, sabe?

Aquela saudaade de um bichinho “lindo, adorável e delicado, que o destino trouxe pela janela de casa”.

Só pra depois perceber que: coisa nenhuma. Agripino era um enviado do inferno.

Agripino, o agapornis lindo e revoltado dormindo.png
um dos nossos melhores momentos juntos: quando ele dormia

E esse post parece fugir um pouco do tema principal do 1 viagem, 2 visões, mas ainda tá bem dentro dele: primeiro, porque eu tava pensando em como a gente viaja na maionese quando lembra das coisas do passado.

Todo momento parece mais bonito quando a gente não tá vivendo mais ele. Lembro que a vida inteira me falaram que a época da escola e da faculdade eram as mais felizes, mas eu gosto de pensar que as épocas mais felizes são as que a gente tá vivendo agora – e que é bem provável que daqui a uns anos, a gente olhe pro passado, veja como tava bem nesse momento, e só então enxergue nossa ingratidão atual.

E também tem a ver com a grande viagem que o Agripino fez pra chegar até onde chegou. Não sei de onde ele veio (Agapornis vem da África, e a espécie do Agripino veio mais especificamente da Tanzânia,… mas imagino que ele não tenha voado desde lá), mas sei que entrou voando pela janela, esbudegado depois de uma viagem cansativa, pedindo arrego.

Repare que o agapornis tentou fugir da vida anterior, largando tudo, viajando pra outro lugar, mas acabou vendo que não era isso que ele queria.

Agripino foi a grande prova de que “largar tudo e viajar” não é sempre a solução, porque ele continuava insatisfeito, querendo matar todo mundo, e acordando todo o prédio, urrando cheio de ódio no coração (aqueles piados no volume 98 às 5 da manhã só podiam ser de ódio).

Me ficaram então essas coisas pra refletir: 1. romantizar o passado é enganação; 2. fugir de tudo e viajar nem sempre é a solução, 3. e parem de trazer animais da África (ou de qualquer país) pra cá: eles não estão gostando disso.

4 comentários sobre “Agripino, o passarinho que viajou e não gostou da experiência

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